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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Marilena Chauí: defendendo a política para além do cartaz

Trecho de entrevista da Marilena Chauí, de agosto, falando sobre Reforma Política, manifestações, governo e redes sociais.

Juvenal Savian Filho – O que você diz sobre as críticas ao governo do PT?

Marilena Chaui - Vamos começar pela questão da moralidade. Quando houve a crise do Mensalão, escrevi um artigo para a página 3 da Folha de São Paulo (foi meu último artigo para a Folha), em que eu dizia o seguinte: uma visão moralista fala de ética na política. Uma visão efetivamente ética tem que falar em ética da política. A ética na política é a transposição de valores privados para o espaço público; a ética da política é a criação de instituições que tenham valores democráticos e republicanos. Faz mais sentido defender a ética da política, porque se há boa qualidade das instituições, não vai poder haver corrupção, pois a corrupção decorre das péssimas qualidades das nossas instituições, que não são verdadeiramente republicanas nem verdadeiramente democráticas. Eu dizia, naquele artigo, algo que tenho dito desde 1994: que era necessário fazer uma reforma política. Nós herdamos da ditadura o pacote de abril de 1975 do general Golbery (do Couto e Silva). Esse pacote, que transformou os territórios em estados, dividiu o Mato Grosso, dividiu o Piauí, o Pará, enfim, rearrumou o país, tinha como finalidade garantir a maioria para a ARENA e impedir a ação política do MDB. Dessa decisão vieram os casuísmos, o sistema eleitoral e a forma completamente absurda da representação dos estados que não leva em conta a densidade demográfica de cada estado da federação. Um dos articulistas da Folha respondeu, dizendo que eu era fisiológica com relação ao PT e que eu era uma comadre do governo. Nunca mais escrevi na Folha. Então, desde 1994 e 2004 eu bato na tecla da reforma política. Por outro lado, me chamar de fisiológica é muito engraçado, porque nunca tive cargo no partido. Ocupei a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo no governo da Erundina (aliás, eu havia recusado, explicando a ela que não podia, não devia nem queria o cargo; mas ela foi mais persuasiva…). Quando me perguntam: “Você tem uma ideia do que poderia ser o inferno?”, digo: “Sim. A Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo”. Essa experiência foi para mim uma violência metafísica. Não tenho cargo em governos. Não tenho cargos no PT. Não represento nenhum político de coisa nenhuma. Eu sou fisiológica no quê? Isso é o que eu chamo de abominação cognitiva, que significa ausência de análise e uso de uma expressão qualquer que não designa realidade nenhuma. Quer dizer, fisiológica no quê? Nas surras políticas que eu levo? Porque o que eu apanho por ser petista e defender o PT e o governo não está no gibi! Já me chamaram de tudo. Só não fui chamada de santa, querubim e duende. Então, é fisiologismo que eu tenha princípios políticos e que os defenda como tais? A minha questão com relação à moralidade é: o sistema gerado pelo general Golbery, que organiza os sistemas partidário e eleitoral, impede que qualquer governante eleito para o poder executivo possa governar só com o seu partido e o obriga a fazer coalizões que destroem a estrutura partidária, os programas e metas, levando a uma perda de identidade. O exemplo que eu costumo dar é o caso da Luiza Erundina. Era um governo do PT e do PCdoB. Só. Não tinha coalizões nem “base aliada”. Mas, quando ela deixou a Prefeitura, haviam ficado parados na Câmara Municipal 325 projetos de lei, a tarifa zero não passou, e uma série de propostas que foram votadas não foram aprovadas. Alguns políticos influentes pagavam os vereadores. Eu não vou dizer o nome deles, mas vou contar um episódio: quando Erundina apresentou seu primeiro projeto, o José Eduardo Martins Cardoso (atual ministro da Justiça), que era o chefe de gabinete, foi negociar com os vereadores. Havia um vereador, tradicional na casa, que falava pelos outros… Ele fez a seguinte pergunta: “Mas, secretário, o senhor não trouxe a maleta?”. O secretário disse: “Qual maleta?”. Ele falou: “A maleta para a gente negociar. Tem um cara aí que já ofereceu para cada um de nós 10 mil dólares. A prefeita cobre?”. Evidentemente, como a prefeita não “cobria”, tivemos 325 projetos de lei que não foram discutidos nem votados. Nós governamos com a cara e a coragem. Ela não conseguiu nenhum empréstimo federal, nenhum empréstimo estadual e bloquearam os pedidos de empréstimos internacionais. Ela governou com os impostos de uma prefeitura que tinha sido quebrada pelo Jânio Quadros. O atual sistema partidário e eleitoral faz com que nenhum eleito para o executivo disponha de maioria no legislativo. Ora, a maioria de projetos e programas precisa de um legislativo que os aprove. Com o sistema atual você é forçado às coalizões. Então, precisamos fazer a reforma política. Mas quando alguém propõe uma Constituinte Específica para isso, o que o PSDB diz? Que é golpe! Ele não quer que mude o sistema político! Vem dizer que a corrupção está do nosso lado quando eles não querem a mudança do sistema político? Além do que, com esses legislativos que estão aí, quem vai fazer a reforma política? Tem de haver uma Constituinte Específica. A arrogância moralista não faz uma análise de por que o sistema partidário e o sistema eleitoral são como são. Por que a classe média não saiu às ruas numa manifestação nacional para derrubar o general Golbery e o Pacote de Abril, já que ela quer a ética na política?  Não vi nenhum deles na rua. Não ouvi um só grito da parte deles. E agora eles gritam contra o efeito daquilo que o Golbery fez como se fosse obra do PT. E não querem que eu fale em abominação política e cognitiva?
Um outro aspecto é a crítica que a esquerda também faz ao governo e ao PT. Por que há, por exemplo, tanta crítica do PSTU, do PSOL e de outros partidos de esquerda?
Vou fazer uma distinção entre pensamento mágico e situação efetiva de vários partidos de esquerda. Começo pelo pensamento mágico. Estive em um debate em que uma participante propôs o programa mínimo para os próximos dias: tirar todos os evangélicos dos legislativos, tirar a Dilma, estatizar os bancos, estatizar as empresas multinacionais e aproveitar a crise mundial do capitalismo, que possivelmente é a última. No caso dos mais velhos, porém, o pensamento mágico é irresponsabilidade política. É importantíssimo que a sociedade faça críticas e leve o governo em direção à esquerda. O Lula e a Erundina diziam isso: “Para poder governar eu preciso dos grandes movimentos sociais puxando para a esquerda”. Ora, com uma ação e um pensamento mágicos, em vez de você puxar para a esquerda e forçar os governos a ir nessa direção, você levanta uma barreira que faz com que ninguém queira ir na sua direção porque ela é tão absurda, irresponsável e ingênua, que ninguém leva a sério. Passo à questão dos vários partidos de esquerda menores (em termos de número de filiados e de representantes eleitos). Esses partidos não possuem uma base social sólida que lhes dê uma clara representação nacional. Por isso, existem principalmente sob a forma do discurso intempestivo. Se você perguntar qual é a ação política efetiva que eles realizaram ou que estão realizando, e de alcance nacional, não há nenhuma. Se estivéssemos numa ditadura e eles não pudessem agir, eu calaria minha boca imediatamente. Mas nós estamos numa democracia; portanto, eles podem agir. Mas sua ação é pontual, fragmentada e tem a finalidade (justa e necessária) de marcar presença. Por que isso? Porque é a única forma de aparecer no cenário nacional. Se você tomar os meios de comunicação, vai ver uma coisa interessantíssima. Quando, em termos eleitorais, se achou que Heloísa Helena tinha alguma possibilidade de impedir a eleição da Dilma, os meios de comunicação a promoveram de todas as maneiras, até o instante em que ela fez bobagem, porque ela é despolitizada. Passaram então para Marina. Tentaram usá-la. E quando perceberam que a Marina não ia dar conta, a abandonaram também. Então, há uma espécie de exército político de esquerda que funciona como um exército de reserva que as oposições e a mídia instrumentalizam e, depois de usar, esvaziam.
Como você vê o elogio dos movimentos sociais e das lideranças individuais, feito por alguns intelectuais que defendem a superação do modelo partidário?
Eu acho que falta uma verdadeira análise econômica, uma verdadeira análise de classe e uma verdadeira análise do que seja a democracia. Se você não faz uma análise da forma da propriedade, com base na qual você pode pensar a divisão social; se não pensa a sociedade como contraditória e conflituosa; e, sobretudo, se não pensa como exercício de poderes tácitos e implícitos, nunca vai poder operar no campo político. Porque vai operar no campo político sob a forma da explosão espontânea disto ou daquilo. Como é que se garante a vida de coletividades inteiras, a vida de um país inteiro, à espera de que aqui e ali, como cogumelo, brote um líder que fale isso, outro que fale aquilo? Mas não é só isso! Quem vai realizar o que deve ser realizado? Eu posso sair pela rua e dizer: “É o seguinte: amanhã não quero latifúndio no Brasil, não quero agronegócio e quero o fechamento dos bancos. Ponto”. Aí, eu vou nas redes sociais e conclamo o país para ouvir a minha voz nessa direção. OK. Todo mundo aprova. Mas quem executa? Esses elogios são de uma cegueira muito grave, porque há um universo que é composto pela propriedade, pelas classes sociais e pelas institucionalidades. Como é que se vai operar sem isso? Você pode transformar tudo isso numa outra direção, mas não pode dizer que você vai operar sem isso. Você não está em Atenas! Você não está em Roma! Até Roma virou Império e Atenas teve os 30 tiranos! Eu insisto que precisamos compreender o sistema planetário de controle e vigilância postos pela web e pela internet, no qual o centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma, disseminado numa infinidade de máquinas pelo mundo, formando, como explica Paul Mathias, uma nebulosa informacional amplamente insondável, diversamente organizada, às vezes aberta e disponível, mas frequentemente fechada e secreta. A internet nasce numa infraestrutura econômica que ela mantém invisível, aparecendo como um ambiente universal de informação e comunicação globalmente uniforme. Ora, nossa experiência reticular está circunscrita a um número restrito de programas aplicativos que permitem as múltiplas operações desejadas em um número limitado de gestos previstos e uniformes em todo o planeta, sem que tenhamos a menor ideia do que são e significam os protocolos informáticos que empregamos. Ignoramos os procedimentos operatórios que a criaram e a conservam, as leis de sua formação e configuração, sua arquitetura funcional. Por isso, não é possível celebrar as redes sociais como libertárias em si e por si mesmas, dispensando as mediações políticas.

sábado, 3 de agosto de 2013

O infantilismo político na Rede

Do Correio Braziliense

Pedro Piccolo Contesini, 27 anos, membro da Comissão Executiva Nacional Provisória da Rede Sustentabilidade, pediu seu afastamento da organização, ontem. O sociólogo foi identificado com uma camisa do partido que Marina Silva tenta criar para concorrer às eleições de 2014 durante a depredação do Palácio Itamaraty, em 20 de junho. Ele participava das manifestações naquela noite e imagens a que o Correio teve acesso mostravam o militante com uma barra de ferro, de cerca de dois metros. Na sequência das fotos, o rapaz joga o objeto em direção ao prédio.
Ainda na tarde de ontem, a Rede soltou nota em que anunciava o afastamento de Pedro, pelo menos até que as ações dele fossem apuradas. “Em decorrência da investigação iniciada pela Polícia Federal sobre sua suposta participação nos atos de depredação do Itamaraty, Pedro Piccolo Contesini, membro da Executiva Nacional Provisória da Rede Sustentabilidade, pediu nesta tarde o afastamento do cargo até que os fatos sejam apurados. A Executiva Nacional Provisória acata e respeita a decisão de Piccolo”, afirma a nota.
Em seu perfil no Facebook, o rapaz admitiu ter participado do ato e, inclusive, ter usado a barra de ferro, mas, segundo ele, somente como proteção. “A tensão foi crescendo e o único lugar que parecia mais desguarnecido de tropas era o Palácio do Itamaraty, para onde a PM praticamente empurrou uma parte dos manifestantes, ao continuar a jogar bombas sobre o gramado diante do Congresso. Esse foi o contexto de um dia no qual cometi muitos erros, mas só pude ter plena consciência deles retrospectivamente”, alegou.
Apesar de afirmar que não depredou o prédio, Pedro acabou pedindo desculpas para os companheiros de organização. “Hoje vejo com clareza os excessos que cometi e o risco a que submeti a Rede, de ser caluniada ou passar a ser objeto de insinuações de ter algo a ver com os quebra-quebras durante as manifestações. Estou arrependido, errei politicamente, mas em nenhum momento cometi crime”, continuou. Os reparos com o Palácio do Itamaraty custaram R$ 18,5 mil.
Pedro Contesini foi procurado por agentes da Polícia Civil do DF em 24 de julho. Segundo o rapaz, ele prestou depoimento na 5ª Delegacia de Polícia. De lá, o processo seguiria para a Polícia Federal. Só então seria produzido um inquérito, a ser enviado ao Ministério Público, que decidiria pela abertura, ou não, de processo judicial.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Black blocs e generalizações

Texto publicado com o título "Herança maldita" na Folha de São Paulo, hoje, avalia que o crescimento da estratégia "black bloc" (fala-se em em estratégia justamente distinguindo-a de movimentos sociais) representa o lado negativo dos protestos brasileiros. Essa discussão está em curso e, a meu ver, não há precisão e muito menos isenção jornalística, até agora, capaz de qualificar melhor as informações publicadas até aqui. Em si mesma, essa estratégia contém um problema: qualquer sujeito sob máscara, atuando num protesto pode encontrar "guarida" no rótulo em questão, mesmo que suas intenções não guardem qualquer relação com a suposta ideologia anti-globalização da estratégia "black bloc". Ainda assim, mesmo com essa caracterização que favorece o não entendimento, há erros perfeitamente possíveis de serem evitados por parte da imprensa. Refiro-me a erros como o do artigo da Folha, no qual a manifestação contra o oligopólio da imprensa em São Paulo no dia 11 de julho é associada ao "black bloc". Se houve algum tipo de adesão, por parte de "black blocs" a este protesto, é algo a se questionar e não afirmar inadvertidamente. O protesto que ocorreu na zonal sul de São Paulo e dirigiu-se à frente da TV Globo foi organizado e convocado por coletivos de ativistas pela democratização da mídia, os quais atuam publicamente, defendem esta pauta há anos, tem presença reconhecida nas redes sociais, ou seja, diferem-se dos emergentes "black blocs". 
É necessário haver cuidado e seriedade para que não se passe a usar o rótulo "black bloc" para (des)qualificar toda e qualquer manifestação que não seja do agrado de certos grupos de interesses político-econômicos.
Na sequência, o texto da Folha.

Herança Maldita
por Alan Gripp

SÃO PAULO - O roteiro é manjado. O protesto, seja lá contra o que for, começa pacífico até que um grupo mascarado, como se atendesse a um comando único, toma a frente da marcha e começa a quebrar tudo o que surge pela frente.

"Chegaram os black blocs'", costuma-se ouvir entre os manifestantes, num tom que mistura medo e um certo glamour da violência.

O "black bloc", na verdade, não é um movimento, e sim uma estratégia de protesto anarquista. Seus adeptos cobrem o rosto e se vestem de preto para dificultar a identificação e a fim de parecer uma massa única, criando uma aura revolucionária.

Esse método apareceu nos protestos antiglobalização no fim da década de 1990. Símbolos capitalistas são os alvos preferidos, mas a versão tupiniquim tem especial atração por semáforos, radares, cabines da PM e outros equipamentos públicos.

Por aqui, seus adeptos deram as caras nos primeiros atos pela redução da tarifa de ônibus, em São Paulo. De lá para cá, entretanto, muita coisa mudou. Os "black blocs", especialmente paulistas e cariocas, crescem em progressão geométrica, estão sempre preparados para a guerra e já organizam as suas pró- prias manifestações.

Anteontem, na avenida Rebouças, portavam martelos e marretas, usados para quebrar agências bancárias e carros de luxo de uma loja.

Há três semanas, num ato contra a TV Globo, usaram laptops e projetores para exibir mensagens gigantes nas fachadas de prédios.

Nesse mesmo dia, em "assembleia" assistida pela Folha, discutiram táticas para escapar da polícia, entre elas hospedar sites em servidores da Rússia ou de Taiwan, "impossíveis de derrubar".

As "vozes das ruas" produziram conquistas inegáveis. A principal delas foi dar à classe política a sensação de estar sendo constantemente vigiada. Nesse balanço, porém, pode-se dizer que os "black blocs" são a herança maldita dos protestos. 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Ecos das manifestações

A presidenta Dilma Rousseff deu início aos investimentos do "pacto pela mobilidade urbana", anunciado após os protestos de junho, em São Paulo. Anunciou também a intenção do governo de iniciar um processo de discussão das planilhas de cálculo das tarifas do transporte público. Alguns trechos do discurso:

"Talvez, junto com as redes sociais, uma das coisas e dos fenômenos mais importantes que vai caracterizar o século XXI é o surgimento de megacidades. E nós estamos aqui em uma megacidade, São Paulo é uma megacidade.

São Paulo é, sem dúvida nenhuma, uma das megacidades, talvez a megacidade mais significativa, importante e desafiadora dessa parte do hemisfério. É uma cidade grandiosa. É grandiosa no tamanho da população, na capacidade de produzir riqueza, mas é também grandiosa na diversidade dos problemas que coloca. É grandiosa pelo fato de aqui se agregam expressões culturais diversas, se agregam fenômenos diversos, e também ela é grandiosa pela capacidade de trabalho e pelo empreendedorismo da população. Sem sombra de dúvida ela é recortada por desigualdades, e por isso, os desafios que São Paulo impõe àqueles que governam essa cidade também são extraordinários.

Eu vim aqui hoje, como disse o ministro das Cidades - e aqui a gente tem a mania de repetir, ele fala e eu torno a repetir – eu vim anunciar mais uma contribuição do governo federal ao enfrentamento desses grandes problemas. Hoje nós estamos anunciando R$ 8 bilhões. R$ 8 bilhões, na verdade, divididos em três áreas: na área de mobilidade urbana serão R$ 3 bilhões; na área de drenagem, R$ 1,4 bilhões; na área de recuperação de mananciais ou das águas que abastecem a cidade de São Paulo, basicamente dos mananciais de Billings e Guarapiranga, em torno de R$ 2,2 bilhões.

E, para que essas obras possam ser feitas sem que a população sofra as consequências, percam suas moradias, nós estamos colocando R$ 1,5 bilhão em moradias do Minha Casa, Minha Vida para 20 mil famílias. Esse cuidado é essencial. Eu considero que viabilizar moradias dignas e de qualidade para a população é um elemento que distingue obras sustentáveis de obras não sustentáveis. E fazem com que nós tenhamos certeza que fazendo essas obras, estaremos contribuindo para que haja uma efetiva melhoria nas condições de vida da população.

Nós, nas obras de mobilidade, iremos fazer 99 quilômetros de corredores de ônibus na cidade – 99 quilômetros de corredores. A informação que eu tenho, eu não sei se ela é correta, é que hoje tem em torno de 160 quilômetros de corredores... 126? São muitos significativos os 99 quilômetros. E acredito que esses corredores vão permitir uma intervenção em zonas essenciais. Na Zona Leste – eu já morei na Radial Leste, então eu sempre cito a Radial Leste, até porque é muito significativo o volume de recursos para a Radial Leste – na região da avenida Berrini, no complexo de M’Boi Mirim, na região da avenida Belmira Marin.

Eu queria dizer a vocês que não é a primeira vez que eu venho aqui a São Paulo anunciar obras. Mas é a primeira vez que nós anunciamos de forma concentrada, R$8 bilhões, e anunciamos a viabilidade dessas obras começarem a ocorrer no curto prazo. O que de fato, como falou o prefeito, é algo muito importante para a população.

Nós, desde o início do governo, aqui em São Paulo, em parceria com o governo federal, o governo estadual e a prefeitura, nós, nessas três áreas - mobilidade, drenagem e obras de mananciais – nós investimos R$ 26 bilhões em obras diversas, em obras espalhadas pela cidade.

domingo, 28 de julho de 2013

Faltou inteligência ou faltou seriedade no jornalismo?

Reportagens do jornal O Globo e do Viomundo sobre militante presa em protesto no Rio de Janeiro e o marido, agente da ABIN, que acusa a arbitrariedade da polícia e a versão do jornal.

Agente da Abin e mulher são presos participando de quebra-quebra no Leblon

Presos pela Polícia Militar sem documentos na madrugada de 18 de julho no Leblon, palco de uma das mais violentas manifestações do Rio, perto da residência do governador Sérgio Cabral, o casal de geógrafos Igor Pouchain Matela e Carla Hirt foram levados à 14ª DP, no bairro. Carla foi detida no momento em que supostamente atirava pedras na vidraça de uma loja, e Igor, por ter desacatado os PMs que a prenderam. O caso seria mais um dos que marcam os bastidores dos protestos na cidade, não fosse por um detalhe: segundo os policiais de plantão naquele dia, os dois se apresentaram como agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e agora são tratados como suspeitos de estarem ali trabalhando infiltrados. A Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo (CEIV) e a Polícia Civil estão investigando o caso.

A Polícia Civil confirmou ao GLOBO que Igor e Carla se apresentaram como agentes da Abin ao chegarem à delegacia. Também informou que, de acordo com o relato do delegado titular da 14ª DP, Rodolfo Waldeck, Carla foi presa em flagrante por formação de quadrilha, e Igor, por desacato a um PM. Na delegacia, Igor também teria desacatado a delegada Flávia Monteiro, responsável pelo plantão no dia. Carla foi autuada por formação de quadrilha e liberada após pagamento de fiança. Igor, por crime de desacato. Os dois não foram localizados para comentar a denúncia.

Segundo nota da Polícia Civil, a CEIV - criada depois dos atos de vandalismo durante os protestos - vai "investigar a informação de que o casal preso na manifestação do dia 18 de julho no Leblon seria integrante da Abin".

Agência nega ter agentes infiltrados

A Abin negou manter agentes infiltrados nas manifestações do Rio. Em nota, garantiu "desconhecer a prisão ou a autuação de servidor de seu quadro em 18 de julho ou nos dias subsequentes na cidade do Rio" e explicou que "o sigilo dos nomes dos integrantes da Abin é garantido pela lei 9.883, de dezembro de 1999, sendo, portanto, vedada a sua publicação, inclusive em atos oficiais". No Diário Oficial da União, de 2008, Igor aparece entre os nomeados para atuar junto ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, ao qual a Abin está subordinada.

O caso de Igor e Carla acontece num momento delicado, em que vem à tona a participação de policiais fluminenses infiltrados em manifestações. Esta semana, o Ministério Público estadual anunciou que passou a investigar vídeos divulgados nas redes sociais, em que policiais do serviço reservado (P-2) da PM do Rio aparecem supostamente infiltrados no protesto em Laranjeiras, na noite de segunda-feira, durante a recepção ao Papa Francisco. No mesmo dia, a PM reconheceu o uso do expediente, informando que os policiais agem filmando, coletando provas e fazendo prisões.

Infiltrar agentes é prática reconhecida internacionalmente nos meios policiais de inteligência, mas os especialistas alertam que há limites: o agente infiltrado deve se limitar a observar, coletar informações e transmiti-las. Mas eles não podem se envolver em crimes - há denúncias de manifestantes de que PMs estariam incitando e até praticando atos violentos.

- Na ausência de disciplina legal específica, os limites da ação de inteligência são os parâmetros gerais, constitucionais e legais dos agentes estatais - disse um especialista, que preferiu o anonimato.

Ainda segundo ele, essa premissa tem sua validade confirmada na Lei n. 9.034/95, que trata dos meios operacionais para a prevenção e repressão de ações praticadas por organizações criminosas. Em seu art. 2, inciso V, a lei prevê a infiltração por agentes de polícia ou de inteligência, em tarefas de investigação, constituídas pelos órgãos especializados pertinentes, mediante circunstanciada autorização judicial.

- Falando em tese eu diria: mesmo para a infiltração estrutural, é preciso autorização judicial que preveja os limites genéricos da operação. Na lei atual, embora não esteja prevista a possibilidade da prática de crimes pelos agentes infiltrados, entende-se na doutrina ser admissível quando se tratar de prática necessária e imprescindível para a garantia da infiltração, o que envolve obter a confiança do grupo, e o crime a praticar for menor do que o investigado.

Carla Hirt: Baleada, agredida e acusada de formar quadrilha, militante diz que foi difamada pela mídia e teme represálias

publicado em 26 de julho de 2013 às 23:29

por Luiz Carlos Azenha, do Viomundo

Desde a noite do dia 17 de julho a geógrafa Carla Hirt, integrante do Comitê Popular Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro, vem vivendo um pesadelo.

Primeiro, foi atingida por dois tiros de balas de borracha durante manifestação na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Depois, foi presa sob acusação de formação de quadrilha, apesar de desconhecer totalmente aqueles que foram presos junto com ela — supostamente integrantes da mesma quadrilha.

Em seguida, Carla foi autuada como se tivesse sido presa na rua Visconde de Pirajá, onde de fato aconteceram atos de vandalismo — quando, assegura, foi presa na rua Redentor, 294, diante de um prédio intacto, de fachada de vidro, onde ela e outros manifestantes se abrigaram justamente para evitar os tiros da polícia.

Finalmente, no dia 25, o jornal O Globo publicou uma reportagem ilustrada por uma foto que sugere que Carla e o marido dela, Igor, agente da ABIN – Agência Brasileira de Inteligência — teriam sido flagrados em atos de vandalismo.

Leiam a legenda.

Nem Carla, nem o marido aparecem na foto acima.

Ela não foi presa atirando pedras.

O marido nunca foi preso, nem nas ruas, nem na delegacia.

Igor foi à delegacia para socorrer Carla, que havia telefonado para relatar que tinha sido ferida por uma bala de borracha e estava a caminho da delegacia, presa.

O Globo fez mais: sugeriu no título que Carla e o marido foram presos “participando de quebra-quebra”.

A notícia de O Globo foi replicada nas redes sociais e por outros meios.

O jornal voltou ao assunto em outro texto, no qual destacou que a ABIN faria uma investigação do caso.

Porém, a própria nota oficial da ABIN desmentia o jornal.

Primeiro, deixou claro que Carla não pertence aos quadros da agência.

Depois, informou que o marido dela não estava infiltrado na manifestação.

Finalmente, que Igor passava férias no Rio de Janeiro.

Na edição impressa, o diário direitista anunciou: “Vândalo chapa-branca: Agente da Abin foi preso em protesto“. E fez trocadilho: "Faltou inteligência".

*****

Igor Matela, o marido de Carla, escreveu um texto rebatendo o jornal.

Enviou por e-mail a O Globo:

“Hoje fui surpreendido por uma reportagem da editoria Rio do jornal O Globo que relata que eu e minha esposa, Carla Hirt, teríamos sido presos por ações de vandalismo no dia 17/07 na sequencia do protesto em frente à casa do governador Sérgio Cabral. Além disso, a reportagem afirma que eu e minha esposa teríamos nos identificado como agentes da Abin, insinuando que estávamos infiltrados e com outras intenções que não a livre manifestação política.

Gostaria de informar que tal reportagem é difamatória, não nos ouviu e publicou informações erradas que poderiam ser facilmente checadas na própria 14 DP. Carla é professora e atualmente doutoranda no IPPUR/UFRJ. Foi presa de forma arbitrária, agredida, baleada, acusada de formação de quadrilha junto com outros rapazes que ela sequer conhece. A denúncia é tão absurda que o Ministério Público indicou que não irá levar adiante, uma vez que a polícia não conseguiu provas do crime.

No meu caso, é verdade que trabalho na Abin. Passei num concurso público e sou um servidor federal como qualquer outro, submetido à lei 8.112. Tenho garantido minha livre manifestação política. Neste dia, não fui preso. Quando Carla estava sendo abordada e já tinha sido ferida, conseguiu me ligar.

Ouvi pelo telefone que estava sendo agredida e levada para a delegacia. Corri para a DP e cheguei lá uns 30 minutos depois indignado, perguntando pela minha esposa e questionando o abuso de autoridade da PM. Injustamente fui acusado por desacato, numa situação que nada teve a ver com atos de vandalismo. Me identifiquei com minha carteira de motorista e disse, quando a delegada que questionou, que trabalhava na Abin. Em nenhum momento tentei usar isso para o que quer que seja, pois se fosse assim teria sido autuado por abuso de autoridade ou então teria sido liberado.

Tudo isso está nos registros de ocorrência da delegacia.

Esta história conspiratória está me causando muitos prejuízos. Está ferindo minha honra e de minha esposa, me colocando em risco por me associar com policiais infiltrados e está me trazendo problemas no trabalho, onde posso sofrer um processo disciplinar.

Se quiserem ter referências sobre mim e sobre a Carla, sobre nosso efetivo e honesto engajamento político, podem perguntar a várias pessoas: professores do IPPUR/UFRJ (onde eu também curso mestrado), com o vereador Eliomar Coelho que conhece bem a Carla, Comitê Popular da Copa e Olimpíadas, Justiça Global, etc.

Gostaria de pedir que esta reportagem fosse retirada do site do jornal, pois nossos nomes completos estão sendo expostos, causando um prejuízo incomensurável para nós. Já estamos desmentindo a reportagem nas redes sociais, recebendo muita solidariedade de todos. Mas gostaria que os senhores também fizessem uma retratação.

Ciente de sua compreensão,
Atenciosamente,

Igor P. Matela“.

O poder em tempo de Facebook

O curioso artigo de Fernando Henrique Cardoso publicado no Estadão, um mês antes (5/5/2013) dos protestos brasileiros:

Fernando Henrique Cardoso*
Eu já estava me preparando para apelar aos brasileiros e brasileiras a fim de assinarmos um texto enérgico exigindo ação do Conselho de Segurança na Ásia, punição exemplar para o terrorismo islâmico e até um armistício na guerra dos Poderes entre nós. Vendo e ouvindo o noticiário da semana passada, entretanto, tive a impressão (ou a ilusão) de que o risco da guerra atômica que a Coreia do Norte iria desencadear está afastado. O atentado em Boston foi coisa de americano naturalizado, e não de terrorista da Al-Qaeda. E o choque inevitável entre o Congresso e o STF terminou em abraços. Dei marcha atrás. Pude ler calmamente dois livros interessantes.

O primeiro foi o de Manuel Castells Redes de Indignación y Esperanza. Com precisão, vivacidade e enorme quantidade de informações, Castells passa em revista o que aconteceu na Islândia, em Túnis, no Egito, na Espanha (o movimento dos "Indignados") e nos Estados Unidos, onde o movimento pela ocupação de espaços públicos (Occupy) teve certo vulto. Por trás desses protestos está o cidadão comum informado e conectado pelas "redes sociais" e por toda sorte de modernas tecnologias de informação. Havendo um clima psicossocial que as leve à ação e algum fator desencadeante, as pessoas podem sair do isolamento para se manifestar. Dependendo do fator desencadeante (desemprego, autocracia e imolação de alguém como forma de protesto, em certos casos, ou perda de emprego e de esperança, em outros), pessoas mobilizam-se, juntam-se em grupos ou multidões e contestam o poder.

Como e por que o fazem? Para que as ações ocorram não bastam as tecnologias. É preciso uma chispa de indignação a partir de um ato concreto de alguém (ou de alguns). Mais importante do que a origem do protesto, entretanto, é a forma como ele se manifesta e se propaga. A imagem é central para permitir um contágio rápido, por sites como o YouTube ou o Facebook.

A chispa, entretanto, só ateia fogo e produz reações quando se junta profunda desconfiança das instituições políticas com deterioração das condições materiais de vida. A isso se soma frequentemente o sentimento de injustiça (com a desigualdade social, por exemplo, ou com a corrupção diante do descaso dos que mandam), que provoca um sentimento de ira, de indignação, geralmente proveniente de uma situação de medo que dá lugar a seu oposto, a ousadia. Passa-se, assim, do medo à esperança.

Esses protestos têm em comum dispensar líderes, manifestar-se pela ocupação de um espaço público, enfatizar a unidade do movimento e a autonomia dos atores. Costumam ser autorreflexivos e pouco programáticos. "Portanto, são movimentos sociais com o objetivo de mudar os valores da sociedade"; podem ter consequências eleitorais, mas não pretendem "mudar o Estado, nem se apoderar dele". Eles propõem uma nova utopia, a da autonomia das pessoas diante das instituições. Nem por isso, entretanto, diz Castells, são opostos à democracia representativa. Apenas denunciam suas práticas tal como se dão hoje, com perda de legitimidade. A influência desses movimentos sobre a política é limitada (depende da abertura das instituições às negociações com os movimentos), mas eles expressam a "negação à legitimidade da classe política e a denúncia de sua submissão às elites financeiras".

O outro livro que li, The End of Power, escrito por Moisés Naim, também trata do poder contemporâneo e das formas de sua contestação. Naim ressalta o gigantismo do poder - o big state, as grandes organizações econômicas internacionais, etc. - e, simultaneamente, mostra que surgiram formas de micropoder capazes de minar as estruturas tradicionais de poder, as grandes organizações do Estado (Congressos, partidos, Forças Armadas). Uns vetam os outros e, ademais, a autonomia dos indivíduos e sua constante busca por espaço enfraquecem a capacidade do poder de se efetivar.

Assim como Castells, Naim reconhece a importância dos movimentos contestatórios contemporâneos e sabe que a perda de legitimidade dos que mandam está na origem das revoltas contra as democracias representativas. Com uma diferença: Naim aposta no reencontro entre o protesto explosivo - "apolítico", no sentido de ser indiferente à reconstrução do Estado e das instituições - com a renovação dos partidos e das instituições. Não perdeu a esperança no restabelecimento de elos entre a autonomia do indivíduo e a representação política nas instituições, inclusive nos partidos.

Castells tampouco menospreza o diálogo dos movimentos sociais com os líderes e movimentos institucionais reformistas. Tem, todavia, maiores esperanças na mudança dos valores da sociedade pela pressão dos movimentos do que numa mudança institucional forçada por eles. A mudança cultural torna-se, para Castells, condição para as mudanças políticas, enquanto Naim, numa abordagem mais afim com a tradição clássica, crê na possibilidade da relegitimação das instituições políticas.

As consequências dessas análises para o nosso dia a dia são óbvias. Enquanto houver uma condição material razoável e um fluxo de informações que reflitam mais o ânimo dos "grandes atores" (os Estados, os partidos, a briga institucional) será ilusório esperar que as pessoas passem da indignação (ou mesmo que haja tal sentimento) para a esperança. Seria cegueira, contudo, imaginar que a roda da História parou e que nos faltará sempre indignação. Se os ganhos sociais propiciados pela estabilização forem erodidos pela inflação (ainda estamos distantes disso) o panorama pode mudar. Isso não ocorrerá sem um gesto político de recusa do jogo habitual de enganos. Melhor do que esperar por ele, porém, será criar condições para evitar que os erros se repitam e diminuam mais ainda a legitimidade do poder.  

*Sociólogo, foi presidente da República

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O Plebiscito e a Democracia


O governo da presidente Dilma Rousseff enfrenta momentos difíceis, definidos pelo baixo crescimento com aumento da inflação e pelas manifestações da classe média contra a classe política, que colocaram em cheque seu governo e causaram queda da sua popularidade.

Diante desse quadro, a presidente reagiu bem. Entre outras medidas, propôs um plebiscito para saber se o povo quer que o financiamento de campanhas eleitorais seja público ou privado e se quer manter o voto proporcional ou mudá-lo para distrital ou misto. Essa é uma resposta direta ao centro das manifestações populares.

Uma assembleia constituinte convocada exclusivamente para emendar a Constituição nessas questões é uma boa iniciativa. Há muito são discutidas pelos políticos, mas eles não se mostram capazes de respondê-las. Não é surpreendente que os conservadores e os políticos a tenham rejeitado. Para os conservadores é uma ameaça à sua capacidade de "comprar" os políticos ao financiá-los, e, para os políticos, é uma mudança no jogo eleitoral que poderá afetá-los.

Quando cai a popularidade de um presidente, cai também o seu poder. Não o seu poder formal, mas seu poder efetivo, sua liderança. Parte dessa popularidade será recuperada, porque os ativos da presidente --sua firmeza, seus padrões éticos, seu bom conhecimento de economia e dos problemas da infraestrutura brasileira-- continuam a jogar a seu favor, mas agora parecem insuficientes para ela superar a crise política e os resultados econômicos medíocres.

Esses resultados não poderiam ser diferentes, dado o fato de que herdou uma taxa de câmbio altamente sobreapreciada, incompatível com a retomada do crescimento.

No primeiro ano de governo, a presidente tentou enfrentar esse problema, mas de maneira insuficiente. Levou a taxa de câmbio de R$ 1,65 para R$ 2,00 por dólar, quando a taxa de câmbio "necessária" (aquela que garante competitividade para as empresas industriais competentes) é de cerca de R$ 2,75 por dólar.
Não foi além na depreciação porque tanto os economistas identificados com a ortodoxia liberal quanto os identificados com o keynesianismo vulgar, que, juntos, dominam amplamente a definição de políticas econômicas no Brasil, embora se critiquem mutuamente, deram-se por satisfeitos com a depreciação alcançada. Os dois apoiam a "preferência pelo consumo imediato" e o baixo nível de investimento que resultam de uma taxa de câmbio apreciada.

Dado esse acordo, no primeiro ano de seu governo não havia condições para a presidente fazer a mudança de matriz macroeconômica necessária para a retomada do desenvolvimento; muito menos há agora.
Que fazer então? De imediato, a melhor coisa é retomar o ajuste fiscal. O desajuste fiscal não é o problema básico do Brasil, mas a política fiscal é o único espaço de política econômica que está hoje aberto para o governo.

E lutar pelo plebiscito. A reforma política não resolverá a desmoralização a que foi sujeita a política brasileira nos últimos dez anos. Mas é uma resposta objetiva às manifestações. E uma tentativa séria de aperfeiçoar o sistema eleitoral.

domingo, 21 de julho de 2013

Conversa blogueira: sobre a fala da presidenta no "Conselhão"

Em dois trechos de discurso feito pela presidenta Dilma Rousseff, na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, houve uma tomada de posição marcando diferença em relação àqueles que vem interpretando que os protestos brasileiros expressariam uma insatisfação com os rumos da economia, que por sua vez demandaria atender as exigências do Mercado, que por sua vez resultaria numa política de austeridade fiscal recessiva. A fala de Dilma destacou o seguinte: 

"Ninguém, neste último mês de várias manifestações, pediu a volta ao passado. Pediram, sim, o avanço para um futuro de mais direitos, mais democracia e mais conquistas sociais"
(...)
" As despesas do governo com o pagamento de juros estão em 4,6% do PIB e são hoje 40% menores que há dez anos atrás, quando este Conselho teve início".


Concordo que falas como "as ruas não pediram a volta ao passado" expressam uma determinação de Dilma em não compactuar com aqueles que querem que o Brasil volte a ser o "último peru de Ação de Graças" do planeta. Foi justamente esse modelo que resultou na incapacidade de investimentos em serviços públicos de qualidade. Dilma nega a fórmula "austeridade + recessão" como solução para a inflação. Ok.

Mas, ao mesmo tempo, continua havendo uma postura algo vacilante (não só por parte do governo) na crítica, na discussão pública e política, e na alternativa a este receituário. Estabilidade fiscal não se faz apenas contingenciando gastos, mas se faz, sobretudo, com um patamar de juros que não comprometa parcelas cada vez maiores dos recursos públicos. Cortar gastos e ao mesmo tempo elevar juros é o mesmo que enxugar gelo com o freezer ligado na potência máxima. Nas entrelinhas, Dilma dá a entender isso. Ao longo de suas entrevistas, fica claro que ela tem essa noção. Mas nem ela, nem o BC e nem a Fazenda (por motivos que provavelmente extrapolam simplesmente a "vontade política") formulam isso explicitamente, em alto e bom som, tranquilamente. 

O resultado é isso: uma sociedade que tem uma legião de indignados contra programas de transferência de renda como o Bolsa Família, que consome uma parcela pequena do orçamento, mas, estranhamente, essa mesma sociedade reage passivamente à defesa diuturna que o Mercado faz em relação à elevação da SELIC, que corrói muito mais o orçamento. Há praticamente um didatismo em todas as instâncias dos meios de comunicação no sentido de convencer aos seus públicos de que a elevação da SELIC é um remédio necessário. E um silêncio absurdo em relação àqueles que afirmam que a elevação da SELIC é um veneno, e não um remédio.

Faz parte disso toda a discussão sobre as medidas macroprudenciais como alternativas no combate à inflação, etc. 

Outro ponto do discurso de Dilma foi sobre os royalties para a Educação. Ela mantém o mesmo discurso de quando enviou a proposta pela primeira vez ao Congresso. A proposta vem sofrendo vários reveses, mas Dilma não sintoniza o discurso com o tamanho dos reveses. O Congresso, inclusive a base "aliada", faz reclamações pesadas contra Dilma. E Dilma evita publicamente de fazer cobranças mais diretas ao Congresso, acreditando que ao fazer isso está respeitando a autonomia dos poderes. Sua fala costuma ser: não cabe a mim comentar decisões dos outros poderes. Respeitar a autonomia não significa não ter posição. Até o sociólogo Manuel Castells, que não deve entender nada dos meandros da política brasileira, comentou em sua entrevista que "Dilma está sendo esfaqueada pelas costas pelos políticos". Não se trata de declarar guerra ao Congresso. Mas apelos diretos, firmes e públicos aos parlamentares deveriam, ao meu ver, estar mais presentes na atuação política do governo. Até para que não se repita o episódio da MP dos portos, quando o governo deixou a situação chegar a seu limite, levando Dilma a fazer um apelo com apenas poucos dias faltando para a MP perder sua validade (embora a Medida tivesse sido enviada há meses ao Congresso). O resultado foi aquele: a sessão mais longa da história da Câmara com um festival de deputados ligando para outros deputados voltarem ao Congresso porque os colegas já tinham ido para casa dormir, "achando" que a sessão já tinha terminado.

As posições do governo são conhecidas daqueles que se opõe a elas, como no caso de juros, mudanças nos contratos de concessões públicas, royalties, etc. Não reiterá-las e compartilhá-las com toda a sociedade, não diminuirá a animosidade daqueles que não querem mudanças, mas sim a "volta ao passado". Pelo contrário: o silêncio só fará aumentar a sensação de isolamento do governo.

sábado, 13 de julho de 2013

Notas sobre junho

Junho de 2013 foi um mês estranho. Para além do deslumbramento com as manifestações de rua, foi um mês estranho pelo conjunto dos acontecimentos. Não se trata de desqualificar a importância do desejo de participação popular. Mas a significação política vai além da suposta espontaneidade das ruas. Significação indecifrada, é verdade, mas que certamente ultrapassa a voz das ruas. 

Numa democracia que ainda não completou três décadas de existência vimos editoriais da imprensa nacional ironizarem o fato de que, diante das manifestações violentas em Brasília, as "tropas fiéis" a Dilma Rousseff não teriam passado de um cordão humano composto pelos duzentos homens que fazem a guarda pessoal da presidência da República. O estranho fato de a Segurança Institucional ter deixado isso acontecer deu lugar a um fantasmagórico humor político. Humor de mal gosto redobrado pelo fato de que a atual presidente iniciou sua trajetória política movida justamente pelo inconformismo diante de um golpe militar que depôs presidente da República, cassou políticos eleitos democraticamente, perseguiu opositores, instaurou a censura, enfim, impôs o autoritarismo na vida política do país. Nossos principais jornais parecem ter vivido um flashback dos anos em que chamaram de Revolução o golpe de Estado. Assinaram, como se fosse algo trivial e cotidiano, notas afirmando haver uma trama paralela sediada no Palácio do Jaburu: a presidente eleita caminharia a passos largos para o mesmo caminho de figuras como Getúlio Vargas, Jânio Quadros e Fernando Collor. Um precário fio de pudor talvez tenha impedido de acrescentar João Goulart à trágica lista. O vocabulário do golpe entrou em cena sem que se tratasse apenas de alusão histórica. Se não foi iminência real e possível, foi o quê? Um terrorismo psicológico contra Dilma? Em se tratando de uma imprensa que já assumiu publicamente que, diante da inconsistência da oposição partidária, ela própria se via na necessidade de fazer o papel de oposição, tudo é possível.

Um jornalismo que costumeiramente deturpa o sentido das mobilizações populares e aplaude a desmedida repressão policial, entrou em clima celebratório com loas à festa-cívica-pacífica-espontânea-linda-linda-linda-bonita-mesmo-e-espontânea. Claro que a essa altura já não se noticiava mais demandas específicas e contraditórias que se colocaram nas ruas. Não. A essa altura, já era o povo brasileiro unido contra os partidos, contra a corrupção, contra a inflação, lutando pela liberdade tal qual os povos que se levantaram contra ditaduras no norte da África. Um dos jornais de maior circulação no país praticamente arvorou-se na função de líder das massas: depois do pronunciamento presidencial e do abalo na aprovação popular do governo, lançou um editorial decretando o fim da mobilização nas ruas. "Basta. A hora das ruas já se esgotou. Cumprimos uma etapa". Ecos de uma imprensa comandada por meia dúzia de famílias.

Tornou-se clara a falta de comprometimento com ações que, de fato, representassem mudanças na estrutura de nosso sistema político: a proposta de um processo Constituinte exclusivo para fins de uma Reforma Política foi prontamente desqualificada. Uma mediação institucional visando mudanças verdadeiramente reformadoras não interessou (e não interessa) àqueles que apenas pretendem lucrar sorrateiramente com a desestabilização do governo de plantão. Aliás, pareceu não interessar a muitos dos aliados desse próprio governo. Nos bastidores da política havia mais interesse em apostar na possível maior vaia da história que Dilma Rousseff levaria caso comparecesse ao Maracanã na final da Copa das Confederações. A realidade talvez não tenha interessado aos torcedores. O presidente da Câmara dos Deputados usou um avião da FAB para levá-lo, junto de sua trupe de convidados íntimos, assistir ao jogo do Brasil. Joaquim Barbosa também foi ao estádio às custas de recursos do Supremo Tribunal Federal. Não foram os únicos, é verdade. Outros, especialmente interessados em engrossar a vaia contra Dilma, embarcaram em voos similares, ou seja, pagos com dinheiro público. 

Ao fim e ao cabo, Dilma Rousseff parece ter sido uma das poucas, entre os representantes dos poderes em todos os níveis, a ter percebido que o momento não era para festa ou preocupações com vaias. Pelo menos não por parte daqueles que deveriam nos representar, já que ninguém parece ter ficado a salvo de críticas nos protestos de junho. Mas muitos não se atentaram a este detalhe e acreditaram poder sentar confortavelmente em camarotes esperando pela vaia alheia. A presidente não foi ao estádio. Em seu lugar, uma figura saudosa da "Revolução de 1964" e hoje dirigente da CBF foi quem entregou o troféu à seleção brasileira. Não dá para dizer que, neste episódio, os brasileiros que festejavam a vitória no futebol estavam também festejando este simbolismo político. Muitos nem sabem da posição de José Maria Marin durante a ditadura militar brasileira. Mas o saldo dos acontecimentos de junho de 2013 nos permite sim avaliar que a ditadura não é assim tão envergonhada quanto a razão histórica nos faz crer. Mas este junho de 2013 também nos ensinou que não é nem minoria e nem silenciosa a voz daqueles que não aceitam a truculência e o autoritarismo que, em alguns, desperta o saudosismo.

*****


Um sonho constituinte

[Comentário meu] A propósito das manifestações e das reações políticas que ocorreram em junho, vale muito ler este texto de Mino Carta. Diante de uma classe política majoritariamente indisponível e refratária a mudanças, Mino desenha o sonho de uma Constituinte capaz de fundar a quarta República. Uma exceção ao cenário "flashback 64" que outros editoriais de imprensa ajudaram a pintar. Segue o texto:

Ulysses GuimarãesQuando apago a lâmpada noturna e pouso a cabeça sobre a almofada, às vezes me visitam personagens da minha vida, e até de outras, que em hipótese alguma chamarei de fantasmas. A escuridão facilita esses encontros, e ontem quem compareceu foi o doutor Ulysses. Guimarães, está claro, o “senhor diretas”, que teve o consolo de presidir a Assembleia Constituinte de meio período.

Illo tempore, na qualidade de diretor da semanal Senhor, queixava-me por escrito de uma Constituinte “nem carne nem peixe”. Raymundo Faoro, colaborador da revista, não deixava por menos. Não há como um Parlamento funcionar de manhã como tal e, de tarde, na elaboração de uma Carta, dita Magna, nova em folha. Um dia, o próprio doutor Ulysses, pacato mas peremptório na voz de barítono, me disse: “Nas circunstâncias, é o que podemos realizar”.

A injunção das circunstâncias é o entrave perene e fatal. Na sua recente visita, saído da treva, o doutor me disse como e por que tivera, contra a vontade, de “conciliar”. O verbo usado foi exatamente este, conciliar. Não se diga que lhe faltava coragem. Além de presidir um partido de fato de oposição, e por isso várias vezes perseguido, e ferozmente, ele enfrentou os cães da ditadura e desafiou a candidatura ditatorial de Ernesto Geisel com sua irônica anticandidatura. Teve, porém, de renunciar às Diretas Já para conformar-se com a composição conciliatória da chamada Aliança Democrática, em parceria com os inimigos de ontem, braço civil da ditadura, e, inclusive, com a participação decisiva de Tancredo Neves, pronto a perceber que a demanda do velho companheiro Ulysses não lhe convinha.

Foram estes os temas da conversa às escuras, embora vivaz. O doutor sabia da proposta da presidenta Dilma por uma Constituinte destinada exclusivamente a cuidar da reforma política, e por um plebiscito capaz de oferecer um propósito claro às manifestações de rua que marcaram a vida nacional na segunda quinzena de junho. “Pois é – disse o doutor –, de tão leves desfazem-se no ar.”

Baixei a cabeça, contrito. “Qual seria a alternativa?”, perguntei, aflito. Meneou a cabeça e desapareceu de chofre, apagado pelo meu sono. E no devaneio fora do tempo e do espaço que se seguiu, assisti, pasmem, à convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva, integrada pelas melhores cabeças do País, para assentar as bases de um Estado contemporâneo, efetivamente democrático, como o Brasil merece e a casa-grande, pela força das “injunções das circunstâncias”, até hoje não permitiu.

Vivemos um momento de extrema perplexidade e, se, em meio a esta névoa de incerteza e desencanto, hesitamos e tateamos em busca do caminho, bastaria lembrar que o antídoto existe, de comprovada eficácia. Seria possível usá-lo?

Apresso-me a repisar, estou a sonhar, mesmo que o estado de autonomia sem peias do sonhador tenha ligações com a realidade. Inegáveis os resultados positivos atingidos pelos governos dos derradeiros dez anos. Os avanços sociais promovidos precipitaram necessidades e demandas desconhecidas até então, ao cabo de mais de um século de história, desde a República fundada pelos generais.

Por quantas repúblicas já passamos? A primeira termina com Getúlio Vargas e logo deságua no Estado Novo. A segunda começa com a queda de Getúlio e se encerra com o golpe de 1964. A terceira nasce com o fim da ditadura, ampara-se, contudo, em uma democracia que mantém de pé casa-grande e senzala. Há um Brasil em desconforto, que dá mostras de não se adaptar às pretensas injunções das circunstâncias e de amadurecer para a fundação da Quarta República.

Soa no devaneio a hora dos estadistas. Onde estão? Pode parecer incrível, mas nas pregas do transporte onírico parece-me ver transitar a sombra de José Bonifácio, de Mauá, de Joaquim Nabuco.

Rebotes

Comentário de Martín Granovsky, do site Página 12, sobre a preocupação do governo Argentino com os acontecimentos de junho, no Brasil.

El kirchnerismo casi no habla en público de lo que sucede en Brasil. El diputado del Frente para la Victoria Eric Calcagno elogió al gobierno brasileño por su decisión de escuchar las demandas sociales, darles una respuesta política y canalizarlas institucionalmente. En privado, funcionarios y dirigentes se tomaron la cuestión de Brasil en serio. No cayeron, por caso, en una visión futbolera al estilo de “a ellos también les tocó” o “tan buenos no eran”. Al revés. Desde el principio buscaron acopiar datos y relevar tendencias de comportamiento. “No queremos que se instale ningún tipo de inestabilidad regional”, dijo a este diario un funcionario que pidió reserva de su nombre. “Los conservadores argentinos que elogiaban a Lula y Dilma para criticar a Néstor y Cristina hacían ese juego para castigarnos, pero ya dejaron de hacerlo, porque su opción no es ni Lula ni Dilma ni Néstor ni Cristina sino las opciones que están a la derecha”, resumió otro.


quarta-feira, 10 de julho de 2013

Política, manifestações e pelo menos um paradoxo a oferecer

O site Viomundo entrevistou o professor de sociologia Todd Gitlin, cujo livro mais recente trata do movimento "Occupy Wall Street", suas potencialidades e suas limitações. O professor arrisca ainda traçar alguns pontos em comum entre as manifestações massivas que tem ocorrido em diversos países: uma percepção de que a classe política está indisponível para a população, mas, por outro lado, uma incapacidade desses movimentos tornarem-se uma força instituída que dure e seja capaz de alcançar vitórias.

Por Heloisa Villela, de Nova York

Não foi a partir dos atentados de setembro de 2001 que o governo norte-americano passou a investigar seus próprios cidadãos, desrespeitando a Constituição do país.

Invasão de privacidade nos Estados Unidos, por parte do Estado, é prática antiga, conta o professor de jornalismo e sociologia da Universidade de Columbia, Todd Gitlin.

No fim dos anos 60, ele participou do movimento contra a guerra do Vietnã. Na época, morava em São Francisco. Ressalta: “Eu não era uma liderança do movimento”.

Ainda assim, anos depois, através de um amigo advogado que tinha contato com o serviço de espionagem das Forças Armadas, Gitlin passou uma manhã inteira conversando com um agente que fora encarregado de seguir de perto os passos dele.

Na conversa, o professor ficou espantado. O ex-espião ainda sabia todos os endereços nos quais Gitlin morou, para quem trabalhava, onde ía…

Os métodos se sofisticaram e a espionagem se tornou ampla, geral e irrestrita, como as recentes denúncias de Edward Snowden sobre a National Security Agency (NSA) estão deixando cada vez mais claro.

Todd Gitlin analisou o aparato de espionagem, o crescimento da indústria de arapongagem e sua conhecida incompetência em recente artigo publicado no site TomDispatch.

Em entrevista, disse ao Viomundo que desde a publicação do artigo passou a receber novas denúncias sobre o trabalho dos agentes secretos. No texto, conta que enquanto o FBI recebia dicas a respeito dos irmãos Tsarnaev, aqueles que colocaram bombas caseiras na maratona de Boston, os agentes estavam mais preocupados em vasculhar a vida dos ativistas do Occupy.

Essa indústria de vigilância permanente, que trabalha de mãos dadas com as grandes corporações, está mais preocupada com o controle da população que com os terroristas? “Provavelmente”, diz Gitlin.

“Eles podem até achar que estão preocupados com os terroristas, mas o que sabemos a respeito das ações deles mostra que não entendem quase nada de terroristas. Qualquer pessoa que pensou em encontrar terroristas no Occupy é uma besta. Não tem nem graça”, diz.

Todd Gitlin é autor do livro “Occupy Nation”, publicado no ano passado, uma análise dos movimentos que por um período chacoalharam a política dos Estados Unidos.

Uma observação dele nos chamou especialmente a atenção, considerando eventos estranhos que aconteceram recentemente nas ruas brasileiras, especialmente em São Paulo.

Todd conta que na véspera do primeiro de Maio de 2012, um grupo associado ao Occupy de São Francisco seguiu, em passeata, até um bairro chamado Mission — onde não moram ricos, nem representantes do 1% mais rico dos Estados Unidos. Lá, o grupo destruiu lojas e carros. Um médico, que fazia parte do movimento Occupy e testemunhou a cena, garantiu que um grupo de rapazes atléticos, bem barbeados e movidos à testosterona, liderou o quebra-quebra. Acrescentou: “Não sou um desses fanáticos por teorias de conspiração. Mas já li a respeito de agentes provocadores e tenho que dizer que, sem dúvida, acredito 100% que as pessoas que começaram os eventos de hoje à noite eram exatamente isso”.

Gitlin também conta que a vigilância do aparato de segurança já existia quando o movimento Occupy nasceu. No dia 17 de setembro de 2011, um grupo de ativistas de Nova York decidiu seguir em passeata até a sede do banco JPMorgan Chase.

Chegando lá, os ativistas encontraram o quarteirão todo cercado. Muitos deram como certo que a polícia soube, de antemão, através do monitoramento da troca de e-mails do grupo, para onde pretendiam ir. Por isso, decidiram mudar de rumo na última hora. Seguiram para o Parque Zuccotti, no baixo Manhattan, e ali ficaram — dando início ao que se tornou, depois, o Occupy Wall Street.

Todd Gitlin acredita que os métodos policiais foram empregados por mais de um ano para enfraquecer, com sucesso, o movimento. Mas não atribui o desaparecimento do Occupy a essa interferência.

Ele enxerga na gênese do Occupy a origem da dispersão, mais tarde: ausência de uma agenda política mais ampla e desinteresse e/ou a falta de capacidade organizacional para participar do processo político.

A seguir, a entrevista que nos foi concedida pelo autor:

Viomundo – Quais foram os resultados concretos do movimento Occupy?

Todd Gitlin – O Occupy teve efeito considerável na condução das eleições [legislativas] e mudou o centro de gravidade da política norte-americana. A classe política teve que tratar da questão da desigualdade. Isso roubou a vitória do Tea Party e reorientou o eixo da política norte-americana. Eles [integrantes do Occupy] tornaram mais concretos os desafios da democracia estadunidense diante da desigualdade, mas não conseguiram se sustentar. O movimento enfrentou problemas quando ainda estava nos acampamentos. Quando foram fechados, as forças centrífugas foram fortíssimas. Na superfície, ao menos, tenho que dizer que o Occupy, como movimento, foi bem sucedido enquanto fracassava. Não sei como demonstrar isso, mas muito da energia gerada pelo Occupy foi redirecionada para outros movimentos. É o que ainda está acontecendo com lutas em defesa do meio ambiente, liberdades civis e outras. Mas a habilidade de influenciar a classe política foi muito limitada.

Viomundo – No fim, vimos o Presidente Barack Obama usar a retórica do movimento, falar na defesa dos 99% [contra o 1% no topo da pirâmide], sugerir aumento de impostos para quem ganha mais de US$ 250 mil por ano. Mas foram tomadas medidas concretas para atender as demandas que o movimento trouxe à tona?

Todd Gitlin – Não! É o problema de movimentos como esse, de energia difusa. O problema é como fazer a classe política se mexer. Se o movimento acreditasse nisso, teria se juntado ao Partido Democrata — como o Tea Party fez com o Partido Republicano — e tomado controle de várias áreas do partido, o que não seria difícil.

Viomundo – Para promover mudanças efetivas, eles teriam que entrar no jogo político? Não seria suficiente ter reivindicações mais específicas?

Todd Gitlin — Eu faço uma distinção entre o núcleo do movimento, mais anarquista, que começou com os acampamentos, e a parte de fora, mais convencional, organizada, os sindicalistas, os progressistas, a classe média. Essa parte era bem maior. Mas o núcleo dirigia o processo. E não dava para esperar que eles buscassem isso porque não são assim. Na minha visão, a parte de fora do movimento, se houvesse chance para alguma continuação e canalização da energia em prol de reformas, teria que vir de acordos dos grupos de fora do movimento em torno de um programa mínimo. Mas isso nunca aconteceu. O impulso gerado pelo Occupy se dissipou. Esses grupos organizados teriam de ter formado uma grande coalizão, de sindicatos e movimentos sociais, para ter um acordo coletivo.

Viomundo – Por que não aconteceu?

Todd Gitlin – Pelo lado dos sindicatos, porque eles estão se sentindo vencidos, estão envolvidos em divisões internas, chegaram ao movimento com outra mentalidade. Sabem o que fazer quando tem eleição: eleger democratas. Mas só conseguem acordo para isso. Entram com mentalidade defensiva. Não têm uma mentalidade rebelde. Sentem-se fracassados. As outras organizações progressistas estão envolvidas em suas próprias causas – ação afirmativa, aborto, etc. Não têm ideia coerente a respeito da transformação de forma geral.

Viomundo – O Occupy acabou?

Todd Gitlin – Da forma que vimos em 2011 acho que sim. Mas existe um repositório mais ou menos permanente e subterrâneo, um poço de dissidentes, de anarquistas, de contracultura. E de tempos em tempos ele emerge com preocupações que tocam muitas outras pessoas. De certa forma, o Occupy foi o ressurgimento de um espírito que apareceu primeiro em 1999, durante as demonstrações antiglobalização em Seattle. Agora, esse espírito, que é horizontalista e anarquista, voltou para o subsolo e não sabemos quando virá à tona novamente.

Viomundo – O senhor vê uma correlação entre os movimentos populares recentes no Egito, na Turquia e no Brasil?

Todd Gitlin – Existem muitas distinções entre Tunísia e Egito, depois Espanha e Grécia, Estados Unidos, depois Turquia e Brasil. Mas o elemento comum, ou um deles, é o sentimento de boa parte da população de que a classe política está indisponível para eles. Que vive trancada em um universo que está aquém da influência deles.

Essa é a mensagem que veio da Espanha, da Grécia, dos EUA, da Turquia e parece vir do Brasil. E não é por razões desconectadas que sentem a necessidade de ir às ruas. É porque a politica oficial não é adequada para os problemas que enfrentam.

Mas esses movimentos têm um problema em comum. Eles nasceram entendendo que a classe política falhou com eles. E têm neles mesmos a força para gerar um novo segmento ou substituto para a classe política? Em outras palavras, você não pode governar sendo apenas oposição. A pergunta para todos esses movimentos é: eles podem se transformar, ao menos em parte, em uma máquina, uma espécie de força instituída que dure, que possa alcançar vitórias?

domingo, 7 de julho de 2013

A explosão do ódio

[Comentário meu] Tenho escrito nos textos sobre o pós-manifestações sobre o seguinte problema:"O fato de que houve manifestações fascistas nas ruas tenderá a ser ignorado como questão menor, mas é altamente preocupante para uma sociedade que se quer democrática". Não se trata de dizer que as manifestações tenham sido eminentemente de caráter fascistóide, mas sim como a panacéia da multidão encorajou a este tipo de expressão colocar-se junto aos protestos com um discurso proselitista. Sobre o fascismo presente nas manifestações, vale ler também o artigo de Igor Grabois (aqui).

A matéria que segue, da Carta Capital, e os blogues têm sido a única exceção até aqui.


Antropóloga detecta aumento de sites neonazistas brasileiros. E o índice de arquivos baixados com estas características cresce a uma taxa média de 6% ao ano
por Márcio Sampaio de Castro

Durante a última grande manifestação organizada pelo Movimento Passe Livre (MPL), para comemorar a revogação do aumento das tarifas do transporte coletivo em São Paulo, integrantes de partidos políticos e movimentos sociais foram atacados por jovens trajando toucas ninjas, roupas pretas e coturnos. Enquanto agrediam seus alvos, a multidão ao redor aplaudia e gritava “fora partidos, fora partidos”. Para a antropóloga Adriana Dias, que pesquisa há mais de 10 anos a atuação dos movimentos neonazistas no Brasil e já foi diversas vezes ameaçada de morte por seus integrantes, não resta a menor dúvida sobre quem eram esses jovens violentos e quais eram suas motivações.

A partir da análise de blogs, sites e fóruns de relacionamento, muitos deles com domínio no exterior, a pesquisadora documentou, ao longo de sete anos, que mais de 150 mil downloads de arquivos de teor nazista, superiores a 100 megabites cada, foram baixados por um número equivalente de computadores com endereços eletrônicos localizados no Brasil no mesmo período. De 2009 para cá, o índice de arquivos baixados com estas características tem crescido a uma taxa média de 6% ao ano e até postagens de crianças já foram detectadas por ela.

Para Adriana, um misto de despolitização da sociedade no período pós-ditadura e a transformação da política em escândalo por boa parte da mídia são o ovo da serpente para a expansão de manifestações crescentes de caráter nazifascista na sociedade brasileira. A omissão sistemática das autoridades às agressões perpetradas contra homossexuais, negros, judeus, nordestinos, moradores de rua e imigrantes bolivianos nas ruas de grandes centros urbanos completa o ciclo de terror, que silenciosamente avança junto a um número nada desprezível de jovens brasileiros.


Carta Capital: Nas manifestações populares das últimas semanas em São Paulo, um momento que chamou a atenção foi quando jovens, aparentemente ligados a esses movimentos, atacaram militantes partidários e militantes do movimento negro, destruindo suas bandeiras. Enquanto isso ocorria, a multidão à sua volta gritava “fora partido, fora partido”. Como explicar esses dois fenômenos simultâneos?

Adriana Dias: Desde a ditadura militar nós avançamos por um processo de despolitização espantoso em todas as camadas sociais. Os cursos de sociologia e filosofia foram retirados do currículo escolar. Em segundo lugar, há no Brasil uma proliferação da teologia da prosperidade. Na Alemanha, ela foi fundamental para a ascensão do nazismo. A ideia aqui é que não são as ações do governo que auxiliam nessa prosperidade. Por exemplo, o indivíduo consegue comprar uma casa pelo programa Minha Casa, Minha Vida e vai a um culto religioso e acredita que conseguiu por sua própria conta. Esse afastamento gradual do Brasil de um estado laico torna tudo mais difícil. Tanto na Igreja Católica, em sua linha carismática, quanto em certas igrejas protestantes. Por fim, a política de escândalos, patrocinada pela mídia, criou uma personalização da política como um eterno escândalo. Eu chamo isso de um carnaval às avessas. Se no carnaval o povo vai pras ruas para expor sua alegria, nessas manifestações as pessoas têm ido às ruas para expor suas insatisfações, fazendo reivindicações que não são mensuráveis e de um fundo conservador muito forte.

CC: Quais as alternativas para isso?

AD: A alternativa é a volta para o diálogo com os movimentos sociais. Nas elites políticas, em um sentido mais geral, há um movimento totalitário, dentro do que analisa Hannah Arendt. Particularmente na direita brasileira. Em São Paulo, por exemplo, muitas práticas do Estado são totalitárias. Veja a atuação da polícia. Já em um campo mais específico, entram esses movimentos neonazistas e suas ações, como essa verificada nas manifestações.

CC: Como esses jovens neonazistas são cooptados?

AD: Há um proselitismo muito forte no Brasil. Os grandes líderes têm entre 35 e 50 anos e normalmente são pequenos empresários e profissionais liberais. Estes não vão para as ruas. Em um segundo grupo, temos os mais jovens, que vão para as ruas e não se importam por que sabem que, se forem presos, serão soltos. E temos também as mulheres neonazistas, que são vistas somente como reprodutoras, dentro de um ideal paternalista e machista. Os grandes líderes atuam dentro de universidades, por exemplo, distribuindo material de divulgação do movimento e, principalmente, nas redes sociais.

CC: Como surgiu a ideia de pesquisar o movimento neonazista no Brasil?

Adriana Dias: A partir de uma

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Questões emergentes sobre o pós-manifestações

Os textos reunidos nesta série "Questões emergentes" visam um conjunto de interrogações sobre os protestos brasileiros que ocorreram no mês de junho. Para além da supostamente pura "espontaneidade" eles dão margem a diversos questionamentos políticos. 

Desde o ponto de vista de jornalistas que cobrem a política e eles próprios são possuidores de experiências políticas, como é o caso de Mauro Santayana (Estranhando anônimos e autoritários, aqui). Passam pela análise do periódico El País (Una pregunta inquietante sobre la protesta brasileña, aqui). Passam também, no  artigo de Hermano Vianna, pela centralidade que as redes sociais, que são propriedade privada de corporações midiáticas gigantescas, têm tido neste processo (Quem quer "dobrar o Brasil"?, aqui). Passam ainda pelo apontamento dos riscos colocados às instituições democráticas destacados nas palavras de Wanderley Guilherme dos Santos (O Cerco Reacionário, aqui). Devem contar também com a contribuição da análise econômica de Igor Grabois sobre o jogo político-econômico que permitiu a canalização de certos protestos na figura da presidenta Dilma Rousseff (Por que setores da sociedade brasileira com tradicional repúdio às mobilizações populares foram às ruas engrossar fileiras contra Dilma Rousseff?, aqui). Encontram uma perspectiva geopolítica interessante do jornalista Nil Nikandrov (A multipolaridade em xeque e a geopolítica norte-americana, aqui). E vão, finalmente, à análise do sociólogo Manuel Castells sobre os protestos e a novidade representada pela resposta da presidenta brasileira ao conjunto dos manifestantes (A análise ignorada sobre a resposta de Dilma, aqui).

Certamente, diversos outros pontos de vista têm sido colocados desde o início das manifestações até agora. Nem mesmo pode-se dizer que estejamos, de fato, num instante pós-manifestações. A ameaça de lock out  patronal (nada espontâneo) no sentido de paralisar estradas em todo território nacional ainda ronda o cenário atual. Sabe-se tratar de uma estratégia que assume conotação política capaz de desestabilizar países e governos. As reações estão em curso e ainda não permitem uma compreensão mais precisa. Os mesmo pode-se dizer em relação ao tema da Reforma Política. Reconhecidamente necessária e ligada à crise de representatividade, foi anunciada de forma a dar esperanças de uma Assembléia Constituinte específica. Por pressões da classe política, acabou resultando na ideia de uma consulta popular e, mesmo esta, já enfrenta diversos obstáculos no Congresso. O resultado periga ser nenhum a não ser o sangramento do governo petista e o esgarçamento ainda maior da coalizão política que lhe dá (em tese) sustentação. De qualquer modo, os textos aqui reunidos dão uma boa dimensão dos problemas que se tornaram emergentes após os acontecimentos de junho.

Questões emergentes: estranhando anônimos e autoritários

[Comentário meu] A princípio, minha ideia era publicar apenas o texto "O joio, o trigo e a razão" (Jornal do Brasil), do jornalista Mauro Santayana, nessa série de questionamentos. O texto em questão vai na mesma linha de Wanderley Guilherme dos Santos e, de certa forma, de Hermano Vianna, ou seja: interroga a estratégia das manifestações que partiu das redes sociais contando, inclusive, com mensagens internacionais, misturando-se às demandas objetivas e legítimas que se colocaram nas manifestações, formando uma verdadeira panacéia propícia às ações antidemocráticas. Resolvi juntar no mesmo post o texto "Caixa de Pandora", publicado no próprio blog do jornalista, no qual ele apresenta seu estranhamento em relação às vertentes antidemocráticas que pretenderam conduzir as manifestações. Ambos os textos foram escritos no calor dos acontecimentos e, por isso, não trazem atualizações importantes, mas continuam interessando pelo fato de trazerem a observação política de um jornalista atento à História, preocupado com a democracia e crítico das posições autoritárias.


      As manifestações que tomaram as ruas de todo o país nas últimas semanas começaram de forma legítima e democrática, convocadas por uma organização conhecida, que existe há muito tempo, e que há muitos anos defende a mesma bandeira, acompanhada de outras organizações, muitas delas situadas à esquerda do espectro político.

     O caráter apartidário do Movimento Passe Livre, o êxito da mobilização, a pauta relativamente aberta de reivindicações, foram logo vistos pela extrema direita como  oportunidade  para infiltrar, diretamente e pela internet, suas ideias no movimento, como o “Acorda Brasil”,  adaptação direta do  Deutschland  Erwacht! do nazismo, atribuído a Goebbels.

     Passou-se a incitar o ódio aos  políticos, o desprezo pelas instituições, com a intenção de  desacreditar a imagem do país no exterior, e de atingir a governabilidade e a economia.

     Em um primeiro momento, alguns setores da oposição democrática,  inseridos no sistema político normal,  podem ter sido atraídos  pelo movimento que exibia cartazes pedindo o impeachment da Presidente Dilma,  sem ver outros,  mais numerosos, pedindo indiscriminadamente a cabeça dos políticos e tachando-os, todos, de ladrões e corruptos.

      Outros membros da oposição também  se sentiram certamente acuados,  ao se verem cercados no Congresso, ou em cidades e estados governados por seus partidos, por milhares de pessoas e por grupos armados de paus, pedras e fogo.

     O que estamos vendo, resguardados os manifestantes comuns, é o vir à luz de um frankenstein político que, em nome da liberdade de manifestação, ataca, com bandidos   mascarados, instituições nacionais e militantes do PT, do PSTU, e do  PSDB,  quando estes ousam sair às ruas.

      A tentação de dançar com o diabo, mesmo que por parte de uma minoria, é perigosa e enganadora. Muitos daqueles que apostaram no caos em 1964, pensando que ascenderiam ao poder - como Carlos Lacerda -  terminaram cassados e humilhados pela Ditadura.

      Apesar do recuo das autoridades na questão do preço das passagens, continuam as manifestações, agora com a intenção deliberada de paralisar as capitais, como mostram as manobras sincronizadas de interrupção do tráfego em diferentes pontos, como aconteceu em São Paulo no início da semana.

     Essa vertente fascista vem estendendo paulatinamente o seu controle, indireta e insidiosamente, sobre centenas de pessoas inocentes e bem intencionadas, e não se descarta a possibilidade de que estejam sendo pagos os vândalos que promovem quebra-quebraS e desatam sua fúria diante das câmeras da imprensa internacional.

    É contra esses inimigos ocultos da  democracia que as instituições, os homens públicos e os cidadãos, quaisquer sejam seus partidos, têm que se unir –  e agora.


      A situação criada com as numerosas manifestações, no Brasil, nas últimas semanas, não se resolverá com a reunião realizada ontem em Brasília, da Presidente Dilma Rousseff, com governadores e prefeitos de todo o país - embora o encontro seja um importante passo para atender às reivindicações dos que foram às ruas.
       Seria fácil enfrentar a questão, se as pessoas que vêm bloqueando avenidas e rodovias - levantando cartazes com todo o tipo de queixas - fossem apenas multidão bem intencionada de brasileiros, lutando por um país melhor.
      A Polícia Civil de Minas Gerais já descobriu que bandidos mascarados, provavelmente pagos, recrutados em outros estados, têm percorrido o país no rastro dos jogos da Copa das Confederações, provocando as forças de segurança, a fim de estabelecer o caos.
     Mensagens oriundas de outros países, em inglês,  já foram identificadas na internet, como parte da estratégia que deu origem às manifestações.  
     É preciso separar o joio do trigo.

Questões emergentes: Pergunta inquietante

[Comentário meu] Passado o deslumbramento que chegou ao ponto de se esquecer do questionamento político sobre a real origem das manifestações, é importante que esta reflexão não se perca. Alguns veículos de imprensa internacional passaram longe da cobertura que simplesmente celebrou o caráter espontâneo dos movimentos convocados pelas redes sociais. Exemplo é este texto do El País:

Muchos ciudadanos que participarían en las protestas prefieren seguirlas desde casa por temor a los violentos

Corre por las redes sociales y por la prensa una pregunta inquietante sobre las protestas populares presentes en todo el país: ¿Por qué la policía deja a un grupo de vándalos actuar sin detenerles ni paralizarles? ¿A quién interesa en este momento que una marcha de protesta pacífica en un 99% quede empañada por un grupo que aparece siempre puntual para arrasar con todo lo que encuentra por delante creando irritación y miedo en la población?

Muchos ciudadanos que saldrían felices a participar en las marchas de protesta que ya han conseguido grandes victorias políticas y sociales, prefieren seguirlas desde casa por temor a verse envueltos en uno de esos zafarranchos violentos. No existe una explicación a lo que aconteció, por ejemplo, este miércoles en Belo Horizonte, donde 5.500 policías militares y 1.500 soldados del ejército se mostraron incapaces de impedir que un grupo de cien vándalos destruyeran e incendiaran un concesionario de automóviles, saquearan casas y quemaran muebles en plena calle.

Ayer Belo Horizonte tuvo la primera víctima mortal de las manifestaciones

A ello hay que añadir que la policía, desde la primera gran manifestación de Sâo Paulo, que acabó en una batalla campal, ha sido tremendamente violenta con los manifestantes solo porque querían mover las protestas a un lugar diferente de la ciudad.

Este miércoles Belo Horizonte tuvo la primera víctima mortal de las manifestaciones. Y se trató de alguien pacífico huyendo de los ataques de la policía. Mientras tanto, el grupo de vándalos se despachó a su gusto, observado desde lo alto por un helicóptero de la policía sin que nadie se acercara a ellos.

Esa actitud incomprensible de las fuerzas policiales, que los comentaristas de radios y televisiones expresan incrédulos cada vez, se repite inexorablemente en todas las marchas. A falta de una respuesta oficial a esa pregunta que inquieta a todos, surgen en las redes sociales una serie de explicaciones, que van desde las más peregrinas, como que se trataría de policías disfrazados pagados por quienes desean desprestigiar la protesta ante la clase media, hasta las que sospechan que los agentes reciben órdenes para dejar que los vándalos actúen tranquilamente. El propósito sería que la gente acabe irritada y empiece a abandonar la protesta.

Existe una dosis de violencia imposible de impedir en todas las manifestaciones de masa hasta en las más pacíficas, advierten los sociólogos.