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sexta-feira, 26 de julho de 2013

O Plebiscito e a Democracia


O governo da presidente Dilma Rousseff enfrenta momentos difíceis, definidos pelo baixo crescimento com aumento da inflação e pelas manifestações da classe média contra a classe política, que colocaram em cheque seu governo e causaram queda da sua popularidade.

Diante desse quadro, a presidente reagiu bem. Entre outras medidas, propôs um plebiscito para saber se o povo quer que o financiamento de campanhas eleitorais seja público ou privado e se quer manter o voto proporcional ou mudá-lo para distrital ou misto. Essa é uma resposta direta ao centro das manifestações populares.

Uma assembleia constituinte convocada exclusivamente para emendar a Constituição nessas questões é uma boa iniciativa. Há muito são discutidas pelos políticos, mas eles não se mostram capazes de respondê-las. Não é surpreendente que os conservadores e os políticos a tenham rejeitado. Para os conservadores é uma ameaça à sua capacidade de "comprar" os políticos ao financiá-los, e, para os políticos, é uma mudança no jogo eleitoral que poderá afetá-los.

Quando cai a popularidade de um presidente, cai também o seu poder. Não o seu poder formal, mas seu poder efetivo, sua liderança. Parte dessa popularidade será recuperada, porque os ativos da presidente --sua firmeza, seus padrões éticos, seu bom conhecimento de economia e dos problemas da infraestrutura brasileira-- continuam a jogar a seu favor, mas agora parecem insuficientes para ela superar a crise política e os resultados econômicos medíocres.

Esses resultados não poderiam ser diferentes, dado o fato de que herdou uma taxa de câmbio altamente sobreapreciada, incompatível com a retomada do crescimento.

No primeiro ano de governo, a presidente tentou enfrentar esse problema, mas de maneira insuficiente. Levou a taxa de câmbio de R$ 1,65 para R$ 2,00 por dólar, quando a taxa de câmbio "necessária" (aquela que garante competitividade para as empresas industriais competentes) é de cerca de R$ 2,75 por dólar.
Não foi além na depreciação porque tanto os economistas identificados com a ortodoxia liberal quanto os identificados com o keynesianismo vulgar, que, juntos, dominam amplamente a definição de políticas econômicas no Brasil, embora se critiquem mutuamente, deram-se por satisfeitos com a depreciação alcançada. Os dois apoiam a "preferência pelo consumo imediato" e o baixo nível de investimento que resultam de uma taxa de câmbio apreciada.

Dado esse acordo, no primeiro ano de seu governo não havia condições para a presidente fazer a mudança de matriz macroeconômica necessária para a retomada do desenvolvimento; muito menos há agora.
Que fazer então? De imediato, a melhor coisa é retomar o ajuste fiscal. O desajuste fiscal não é o problema básico do Brasil, mas a política fiscal é o único espaço de política econômica que está hoje aberto para o governo.

E lutar pelo plebiscito. A reforma política não resolverá a desmoralização a que foi sujeita a política brasileira nos últimos dez anos. Mas é uma resposta objetiva às manifestações. E uma tentativa séria de aperfeiçoar o sistema eleitoral.

Dilma: do Desafio Histórico à Tecnocracia

[Comentário meu] Este artigo de Carlos Melo traz pontos importantes da discussão política sobre os governos no Brasil. Algumas questões levantadas encontram-se refletidas na crise política do pós-manifestações de junho. Há, entretanto, que se fazer uma ressalva: o texto foi publicado em abril, portanto, possivelmente escrito em março de 2013, quando nenhuma bola de cristal poderia prever uma situação social como a dos protestos de Junho. O interesse do texto permanece justamente por apontar o esvaziamento da Política como elemento de uma crise latente. Em outros pontos, pode-se discordar: quando trata da questão de investimentos e infraestrutura, não dá para saber se o autor levou em conta os enfrentamentos envolvendo a MP dos Portos e os contratos das empresas de energia elétrica. A resolução da questão dos portos foi posterior à publicação do artigo. Mas a questão do setor elétrico é anterior e, dessa forma, foi mesmo negligenciada pela análise. Também é absolutamente secundarizada a questão da taxa de juros, como se ela dissesse respeito simplesmente a estimular ou não o consumo. Enfim, permanece o interesse pela questão política: a análise de que os sinais de esgotamento apontam para a urgência da Reforma Política, bem como a crítica da tecnocracia como ineficaz para fazer frente a esta urgência.

por Carlos Melo, da Revista Interesse Nacional

O ciclo histórico de Dilma Rousseff não está completo: há tempo de mandato e espaço suficiente para alterar a visão do presente. Seu governo ainda será o que as circunstâncias permitirem e a política souber forjar. Logo, esta análise é, naturalmente, limitada, e o futuro poderá desdizê-la. E seria mesmo positivo que o fizesse. A vantagem do pessimismo é que vale a pena estar errado.

Mas, de um ponto de vista objetivo, até aqui, o governo Dilma realizou pouco e aguarda- se o momento de seu despertar. As incongruências do presente se originam no passado. No processo, estão as chaves explicativas de sua natureza estrutural.

É necessário, então, compreender esse processo para que se percebam desafios, impasses e limites do governo em curso. Um processo longo, de transformação do Brasil, que começa lá atrás, nos tempos de Fernando Henrique (FHC) e Lula, nas escolhas do passado que geram efeitos de longo prazo e ecos que ainda ressoam.

Para isto, é necessário superar a cegueira da euforia e soltar as amarras do preconceito. Veremos que nesta tentativa de explicação, pelo menos como alerta, muito do que se revela vai além do governo e implica um grande problema do país.

Este artigo pretende explicar o governo Dilma, mas também compreender a crise mais geral que vivemos. Sem julgar, busca aprofundar um diagnóstico. Se injustiças foram cometidas, elas são menores do que a vontade de que tudo se reverta e que o Brasil possa reencontrar os caminhos de seu desafio histórico.

1. Desafios históricos: 16 anos de ouro

Todo governo tem seu desafio histórico. Alguns mais dramáticos, outros menos perceptíveis, porque as circunstâncias não revelam tantas angústias. Dilma Rousseff assumiu o governo em condições menos dramáticas que seus antecessores. Todavia, seus desafios também estavam postos. Para compreendê-los, voltemos ao processo de transformação do país, levado a cabo por Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.

Para além do Fla-Flu que se tornou a política brasileira, o fato é que ao fim de quatro mandatos presidenciais, o Brasil promoveu uma interessante síntese, e graves problemas foram superados. Em primeiro lugar, concluiu-se delicada transição política. Em 1995, a memória do regime militar era viva. FHC assumia um país ainda ressentido com o impeachment de Fernando Collor de Mello. Oito anos depois, o ministro da Defesa era civil, os direitos humanos se fortaleciam, a normalidade eleitoral se fixava, a alternância de poder se dava com a eleição de Lula. Em oito anos mais, uma mulher, ex-guerrilheira, seria eleita. Alternância e diversidade: é um Brasil incomparável com seu passado.

Em segundo lugar, são marcantes os avanços econômicos: a inflação, que desorganizava a economia e alargava a desigualdade social, foi controlada. Econômica e socialmente, o Plano Real significou a profunda modernização do país. Iniciou um processo de distribuição de renda, redefiniu o papel e o tamanho do Estado, fez a mais decidida abertura comercial, até então.

Com FHC, houve inegável aperfeiçoamento institucional: foram criadas as Agências de Regulação, mecanismos para orientação e incentivo do mercado, foi estabelecido o imperativo da responsabilidade fiscal. Some-se a isto, a universalização do acesso ao ensino fundamental, e o país começou a ser outro.

A importância de Lula tampouco pode ser ignorada. Em primeiro lugar, porque sua moderação pôs fim ao “risco PT” – uma histeria apenas parcialmente justificada que animava a vida de operadores de mercado e trazia intranquilidade e indecisão, retraindo investimentos. Em segundo lugar, a continuidade do processo iniciado por Fernando Henrique não pode ser rebaixada  à “usurpação”. A decisão não apenas foi p ragmática, mas corajosa.

A começar, porque a eleição de 2002 fora “mudancis ta”, e o eleitorado sinalizara cansaço com os  tucanos. Persistir na mesma linha seria frus trar expectativas populares e populistas, relevar um basismo  atávico e enfrentar radicais. Era, claro, pos sível fazer diferente e piorar tudo terrivelmente. Isto não  ocorreu. É estranho, mas há críticos que parecem  condená-lo por ter agido corretamente.

Num país como o Brasil e na América Latina,  os sensos de realidade e moderação devem ser celebrados como qualidades, e não como defeitos. Não foi fácil desdizer o que reverberava dos palanques havia anos. Realismo político e pragmatismo. Se alguma crítica deve ser feita, será à interrupção do aperfeiçoamento institucional, sobretudo, no controverso entendimento das Agências de Regulação.

Todavia, avaliemos pelo saldo: Lula avançou numa agenda social que circunstâncias fiscais anteriores não permitiam – e a ideologia de setores do governo de FHC descartava categoricamente. De algum modo, Lula buscou a estabilidade com crescimento e distribuição: mantendo cautela macroeconômica, utilizou instrumentos que, em anos anteriores – peremptória, às vezes, sectariamente –, seriam descartados por implicar “custos fiscais” e riscos ao controle inflacionário.

Goste-se ou não, medidas como o Bolsa Família, o Prouni ou as cotas raciais, somadas à estabilidade da moeda, foram relevantes no conjunto das transformações históricas.

Os esforços e as realizações dos dois presidentes devem ser reconhecidos, não apenas per se, mas pela síntese que realizaram. Houve virtù diante da fortuna que coube a cada um.

Claro, o Brasil se transformava até porque também o mundo mudava vertiginosamente com tecnologia, revolução nas telecomunicações e globalização. O capitalismo informacional – na expressão de Manuel Castells – ou a lancinante circulação de capitais, tudo isto empurrava o país na direção de uma economia e de uma sociedade dinâmicas, voltadas para o futuro.

Ao fim e ao cabo, a estabilidade monetária e o crescimento econômico transformaram-se em valores sociais e políticos. Impedir a volta da inflação, manter o emprego e sustentar a inclusão social e o consumo passaram a ser imperativos categóricos da política nacional.

Considerando nossa jovem democracia, não foi fácil, não foi pouco e foi rápido. Todavia, é um projeto inacabado que exige continuidade e aprofundamento. O desenvolvimento e a inclusão social despertaram a necessidade de mais investimento, mais produção, mais consumo, mais escola e qualificação, melhor ambiente de negócios, instituições mais robustas. Um círculo virtuoso se for alimentado; perverso, se interrompido.

Os mecanismos utilizados por FHC e Lula já não bastavam. Juros, câmbio, superávits, políticas distributivistas, incentivos fiscais e crédito são ferramentas importantes, mas insuficientes. É necessário eliminar gargalos: a infraestrutura precária e insuficiente, insegurança jurídica, legislações arcaicas, mentalidades antigas. É preciso melhorar a qualificação do trabalhador. Supor manter o consumo sem garantir a produção é um erro crasso.

Desse modo, a tarefa de Dilma Rousseff seria dar continuidade à transformação: liberar o fluxo do desenvolvimento, sustentável, sem retorno à inflação. Fazê-lo com inclusão social e aperfeiçoamento institucional. Eis seu desafio histórico. A questão que cabe discutir é se Dilma tem cumprido a contento este papel.

2. A crise da política e os esgotamentos de instrumentos

O país se modernizou, mas está longe de ser plenamente moderno. Muito ficou pelo caminho, e novas iniciativas são indispensáveis. Chegou o tempo em que obstáculos estruturais precisam ser removidos, o que compreende conflitos de interesses ainda mais profundos. E quando se vislumbra o conflito, chega-se ao nervo da política.

Mas, se a economia e a sociedade se modernizaram, o mesmo não ocorreu com a política. Dada a emergência das questões dos anos 1990, a transformação do sistema político tornou-se

sábado, 13 de julho de 2013

Notas sobre junho

Junho de 2013 foi um mês estranho. Para além do deslumbramento com as manifestações de rua, foi um mês estranho pelo conjunto dos acontecimentos. Não se trata de desqualificar a importância do desejo de participação popular. Mas a significação política vai além da suposta espontaneidade das ruas. Significação indecifrada, é verdade, mas que certamente ultrapassa a voz das ruas. 

Numa democracia que ainda não completou três décadas de existência vimos editoriais da imprensa nacional ironizarem o fato de que, diante das manifestações violentas em Brasília, as "tropas fiéis" a Dilma Rousseff não teriam passado de um cordão humano composto pelos duzentos homens que fazem a guarda pessoal da presidência da República. O estranho fato de a Segurança Institucional ter deixado isso acontecer deu lugar a um fantasmagórico humor político. Humor de mal gosto redobrado pelo fato de que a atual presidente iniciou sua trajetória política movida justamente pelo inconformismo diante de um golpe militar que depôs presidente da República, cassou políticos eleitos democraticamente, perseguiu opositores, instaurou a censura, enfim, impôs o autoritarismo na vida política do país. Nossos principais jornais parecem ter vivido um flashback dos anos em que chamaram de Revolução o golpe de Estado. Assinaram, como se fosse algo trivial e cotidiano, notas afirmando haver uma trama paralela sediada no Palácio do Jaburu: a presidente eleita caminharia a passos largos para o mesmo caminho de figuras como Getúlio Vargas, Jânio Quadros e Fernando Collor. Um precário fio de pudor talvez tenha impedido de acrescentar João Goulart à trágica lista. O vocabulário do golpe entrou em cena sem que se tratasse apenas de alusão histórica. Se não foi iminência real e possível, foi o quê? Um terrorismo psicológico contra Dilma? Em se tratando de uma imprensa que já assumiu publicamente que, diante da inconsistência da oposição partidária, ela própria se via na necessidade de fazer o papel de oposição, tudo é possível.

Um jornalismo que costumeiramente deturpa o sentido das mobilizações populares e aplaude a desmedida repressão policial, entrou em clima celebratório com loas à festa-cívica-pacífica-espontânea-linda-linda-linda-bonita-mesmo-e-espontânea. Claro que a essa altura já não se noticiava mais demandas específicas e contraditórias que se colocaram nas ruas. Não. A essa altura, já era o povo brasileiro unido contra os partidos, contra a corrupção, contra a inflação, lutando pela liberdade tal qual os povos que se levantaram contra ditaduras no norte da África. Um dos jornais de maior circulação no país praticamente arvorou-se na função de líder das massas: depois do pronunciamento presidencial e do abalo na aprovação popular do governo, lançou um editorial decretando o fim da mobilização nas ruas. "Basta. A hora das ruas já se esgotou. Cumprimos uma etapa". Ecos de uma imprensa comandada por meia dúzia de famílias.

Tornou-se clara a falta de comprometimento com ações que, de fato, representassem mudanças na estrutura de nosso sistema político: a proposta de um processo Constituinte exclusivo para fins de uma Reforma Política foi prontamente desqualificada. Uma mediação institucional visando mudanças verdadeiramente reformadoras não interessou (e não interessa) àqueles que apenas pretendem lucrar sorrateiramente com a desestabilização do governo de plantão. Aliás, pareceu não interessar a muitos dos aliados desse próprio governo. Nos bastidores da política havia mais interesse em apostar na possível maior vaia da história que Dilma Rousseff levaria caso comparecesse ao Maracanã na final da Copa das Confederações. A realidade talvez não tenha interessado aos torcedores. O presidente da Câmara dos Deputados usou um avião da FAB para levá-lo, junto de sua trupe de convidados íntimos, assistir ao jogo do Brasil. Joaquim Barbosa também foi ao estádio às custas de recursos do Supremo Tribunal Federal. Não foram os únicos, é verdade. Outros, especialmente interessados em engrossar a vaia contra Dilma, embarcaram em voos similares, ou seja, pagos com dinheiro público. 

Ao fim e ao cabo, Dilma Rousseff parece ter sido uma das poucas, entre os representantes dos poderes em todos os níveis, a ter percebido que o momento não era para festa ou preocupações com vaias. Pelo menos não por parte daqueles que deveriam nos representar, já que ninguém parece ter ficado a salvo de críticas nos protestos de junho. Mas muitos não se atentaram a este detalhe e acreditaram poder sentar confortavelmente em camarotes esperando pela vaia alheia. A presidente não foi ao estádio. Em seu lugar, uma figura saudosa da "Revolução de 1964" e hoje dirigente da CBF foi quem entregou o troféu à seleção brasileira. Não dá para dizer que, neste episódio, os brasileiros que festejavam a vitória no futebol estavam também festejando este simbolismo político. Muitos nem sabem da posição de José Maria Marin durante a ditadura militar brasileira. Mas o saldo dos acontecimentos de junho de 2013 nos permite sim avaliar que a ditadura não é assim tão envergonhada quanto a razão histórica nos faz crer. Mas este junho de 2013 também nos ensinou que não é nem minoria e nem silenciosa a voz daqueles que não aceitam a truculência e o autoritarismo que, em alguns, desperta o saudosismo.

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sábado, 29 de junho de 2013

Dez pesos para a balança política brasileira

Agora que a Caixa de Pandora está aberta, cabem algumas questões e diferenças que pesam na balança da Reforma Política:

1) As vozes da oposição (seja a dos políticos ou os "especialistas" que os representam: tratam de desqualificar a iniciativa da Reforma Política): Gostariam que o Executivo Federal tivesse caído na armadilha de aceitar essa crise como uma crise exclusiva do governo. Seria um erro: a crise não é uma crise localizada a um projeto de governo: não é crise do bolsa família, não é crise do PAC, não é uma crise que se isole num setor de governo. É crise do sistema político. O que essa crise impacta no ritmo da redução da desigualdade, na corrupção, nos investimentos em infraestrutura, na educação, na saúde é importante, mas como está dito: já é o impacto. Os problemas localizados são consequência e não causa da crise. A crise do sistema político é a matriz. Por isso, as tais vozes da oposição, tendem a desqualificar a iniciativa da Reforma: visavam o emparedamento de um governo e não a busca de soluções reformadoras e republicanas.

2) As vozes do governo federal: decidiram avançar sobre o problema central que é uma crise da República. Com o esgarçamento político da aliança governista, porém, avançam às cegas sem uma dimensão exata da força política com que conta para dar início à reforma. Busca forças junto à sociedade civil organizada para capitalizar a iniciativa (a mudança radical da agenda de Dilma Rousseff na última semana de Junho é prova disso). Diferente da oposição, não contam com uma ressonância de sua posição na imprensa nacional.

3) A imprensa nacional: faz eco às vozes da oposição com a afirmação de que a Reforma Política foi a forma que o governo Dilma encontrou para fugir do problema e "jogá-lo para o Congresso".  Os efeitos dessa ressonância são imprevistos. Para uma parte da população o argumento parecerá justo. Para outra parte, haverá a consideração, no mínimo, sobre a necessidade de iniciar uma discussão sobre a Reforma Política. Mas por parte da imprensa, cada passo de Dilma será noticiado como tentativa de fugir da crise. A imprensa quer manchetes: um exemplo disso foi a abordagem dos jornalistas na coletiva de imprensa com as diversas representações da sociedade civil que Dilma recebeu ao longo da semana: fizeram longas explanações sobre suas demandas e sobre a conversa com a presidente, enquanto as perguntas dos jornalistas era uma só: "ela estava despreparada para o encontro?". O Movimento Passe Livre (primeiro movimento a ser recebido), num gesto arrogante, caiu no erro de dar a manchete que os jornais queriam: disseram que Dilma estava despreparada para a tarifa zero. Nada mais do que eles disseram mereceu atenção, apenas a manchete "MPL diz que Dilma é despreparada". As pesquisas sobre a avaliação do governo passarão a servir, mais do que antes, como confirmação de que a crise é do governo Dilma. 

4) As vozes dos Movimentos Sociais e da Sociedade Civil organizada: poderão ganhar consistência após esse movimento inicial que colocou a Reforma Política na pauta da sociedade brasileira. As primeiras reações foram diversas. Da parte dos sindicatos e centrais, alguns já defendem a Reforma Política, ao mesmo tempo que continuam com suas demandas específicas. Outros, menosprezaram a Reforma e querem ver a discussão imediata de suas demandas. Estes últimos colocam uma perspectiva economicista meramente (ganhos para os trabalhadores) e interessada na manutenção do atual jogo político (já que as centrais expressam ligações diversas com os partidos e, não necessariamente, à esquerda ou alinhadas ao petismo). Os movimentos da juventude, por paradoxal que pareça, tiveram reação muito mais madura do que certos líderes sindicais. O movimento LGBT tem motivos para considerar tardio esse diálogo direto com a presidenta (mesmo sabendo que o centro dos problemas de suas pautas encontra-se no Legislativo), mas sinalizaram positivamente ao encontro com Dilma.

5) Os setores que não tem tradição de mobilização popular, mas foram às ruas: não há conhecimento suficiente ainda. Há tentativas de categorizá-lo. Afirmar que é a classe média antipetista não é falso, mas não é toda a verdade. Há uma juventude despolitizada que pode ter participado pelos mais variados motivos: canalizaram no grito das ruas seu desencanto; foram atraídos pelo apelo acrítico à manifestação-espetáculo; aderiram às posições de direita apartidária (e muitas vezes fascistóide) que defenderam a hostilização de bandeiras e um apelo irracional a um sentimento de união nacional que elimina diferenças de classe, desigualdades sociais e a necessidade de democracia representativa. Essas diversas adesões deram-se paralelamente. E possivelmente há ainda outras mais. Soma-se aqui também setores mais tradicionais cujas posições não vinham sendo suficientes para gerar mobilizações massivas: Clube Militar, a antiga defesa à lá Tradição, Família e Propriedade. Até monarquistas parecem ter sentido um sopro de vitalidade. Os setores evangélicos não se confundem com a perspectiva TFP, mas sua mobilização tende a pender mais ao apelo de uma moral conservadora do que ao pertencimento de classe ou situação econômica (já que o discurso religioso se oferece como englobante destes dois últimos). Em suma, são setores que podem balançar para lados diversos, mas com uma pendência maior ao conservadorismo (o que prejudicaria uma avaliação da real dimensão de uma Reforma Política frente a esse contexto).

Balança estilizada do ceramista Luiz Olinto

6) Os partidos fisiológicos. Há que se fazer uma análise mais qualificada, mas é

segunda-feira, 24 de junho de 2013

A presidenta Dilma abre a Caixa de Pandora da Política Brasileira

O governo Dilma tem sido visto por muitos como um governo tecnocrata. Um dos efeitos disso, seria a menor participação popular nas decisões. O anúncio desta segunda-feira de que enviará ao Congresso uma proposta de plebiscito para a realização de um processo Constituinte (que não necessariamente será uma Assembléia, podendo mesmo ficar à cargo do Legislativo) exclusiva para uma Reforma Política (sempre prometida e nunca realizada, graças a posições como essa que o Senador Agripino Maia sustentou em resposta ao anúncio: de que a reforma precisa ser feita com cuidado, que leva tempo) surpreendeu a todos. Surpreendeu porque fez Política com P maiúsculo. 

Atualmente, um dos principais problemas dos partidos brasileiros concentra-se no fato de que a maioria da sociedade desconhece os processos decisórios. Daí porque a frase "fulano não me representa" tornou-se popular nas ruas. Por isso, é tolice dizer que a proposta anunciada por Dilma não tem nada a ver com a insatisfação que veio das ruas. Hoje, no Brasil, figuras como o deputado Marco Feliciano são exemplo dessa insatisfação que tomou conta de muitos setores da sociedade, mas ninguém sabe exatamente a quem direcionar. Vamos por partes, usando este exemplo para explicitar a lógica do Congresso:

1) Inicialmente, ninguém sabe como Marco Feliciano foi parar na presidência da Comissão de Direitos Humanos;
2) a interpretação que impera é a de que nenhum partido priorizou as pautas que tramitam por essa Comissão, o que teria aberto espaço para o PSC de Feliciano;
3) o debate político é fraco: fulaniza-se a responsabilidade (não que Feliciano não seja responsável, mas não é o único), gera-se insatisfeitos com a omissão e, naturalmente, a cobrança maior cai sobre o PT, que além de ser o partido com a maior bancada, é o partido que tem lideranças que se elegeram defendendo bandeiras como a dos direitos GLBT;
4) no meio disso tudo, a responsabilidade real, que é compartilhada, desaparece das cobranças. Exemplo: pouco se fala que a autoria do projeto da "cura gay" é de um parlamentar do PSDB de Goiás. Não existe um "Fora João Campos". Existe um "Fora Feliciano". Nem é preciso de uma pesquisa para avaliar que a grande maioria da população contrária ao projeto responderia que a autoria é de Feliciano caso fosse questionada. Além disso,  impera a visão de que todos os partidos são iguais e de que todos fazem parte da mesma "onda conservadora";
5) o PT, a despeito de declarações individuais criticando o projeto, cai no silêncio. Quando atreve-se a criticar as ofensivas dos defensores do projeto, é ameaçado pelos partidos com o argumento da necessidade da "coalizão" que sustenta o governo.
6) Talvez, pelo acirramento das insatisfações sociais nas últimas semanas, o presidente do PT, Rui Falcão, deixou passar uma informação importante pelas fraturas que os últimos acontecimentos provocaram nas relações políticas: questionado pela reportagem de Carta Capital se o PT tinha abandonado a posição contra homofobia, ele disse que não. Respondeu que se trata da estratégia interna do partido no Congresso: o PT não poderia presidir todas as comissões que julgasse importantes. Preferiram a Comissão de Saúde e Seguridade Social porque ela é terminal: ou seja é a última comissão que tem poder de recusar propostas como as do projeto da "cura gay". Assim, reafirmou o compromisso do partido em combater tal projeto, mas com a mínima visibilidade possível, quando chegasse a essa comissão terminal.

Ou seja, é uma estratégia que joga apenas com a lógica interna do Congresso, como se o jogo democrático só fosse ser jogado lá dentro. É uma estratégia que se baseia no processo decisório interno do Legislativo. A miopia está no fato de imaginar que o processo decisório interno do Legislativo possa esgotar todos os problemas da vida democrática. O discurso do PT é o seguinte: