domingo, 21 de julho de 2013

Between the bars, por Chris Garneau




Conversa blogueira: sobre a fala da presidenta no "Conselhão"

Em dois trechos de discurso feito pela presidenta Dilma Rousseff, na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, houve uma tomada de posição marcando diferença em relação àqueles que vem interpretando que os protestos brasileiros expressariam uma insatisfação com os rumos da economia, que por sua vez demandaria atender as exigências do Mercado, que por sua vez resultaria numa política de austeridade fiscal recessiva. A fala de Dilma destacou o seguinte: 

"Ninguém, neste último mês de várias manifestações, pediu a volta ao passado. Pediram, sim, o avanço para um futuro de mais direitos, mais democracia e mais conquistas sociais"
(...)
" As despesas do governo com o pagamento de juros estão em 4,6% do PIB e são hoje 40% menores que há dez anos atrás, quando este Conselho teve início".


Concordo que falas como "as ruas não pediram a volta ao passado" expressam uma determinação de Dilma em não compactuar com aqueles que querem que o Brasil volte a ser o "último peru de Ação de Graças" do planeta. Foi justamente esse modelo que resultou na incapacidade de investimentos em serviços públicos de qualidade. Dilma nega a fórmula "austeridade + recessão" como solução para a inflação. Ok.

Mas, ao mesmo tempo, continua havendo uma postura algo vacilante (não só por parte do governo) na crítica, na discussão pública e política, e na alternativa a este receituário. Estabilidade fiscal não se faz apenas contingenciando gastos, mas se faz, sobretudo, com um patamar de juros que não comprometa parcelas cada vez maiores dos recursos públicos. Cortar gastos e ao mesmo tempo elevar juros é o mesmo que enxugar gelo com o freezer ligado na potência máxima. Nas entrelinhas, Dilma dá a entender isso. Ao longo de suas entrevistas, fica claro que ela tem essa noção. Mas nem ela, nem o BC e nem a Fazenda (por motivos que provavelmente extrapolam simplesmente a "vontade política") formulam isso explicitamente, em alto e bom som, tranquilamente. 

O resultado é isso: uma sociedade que tem uma legião de indignados contra programas de transferência de renda como o Bolsa Família, que consome uma parcela pequena do orçamento, mas, estranhamente, essa mesma sociedade reage passivamente à defesa diuturna que o Mercado faz em relação à elevação da SELIC, que corrói muito mais o orçamento. Há praticamente um didatismo em todas as instâncias dos meios de comunicação no sentido de convencer aos seus públicos de que a elevação da SELIC é um remédio necessário. E um silêncio absurdo em relação àqueles que afirmam que a elevação da SELIC é um veneno, e não um remédio.

Faz parte disso toda a discussão sobre as medidas macroprudenciais como alternativas no combate à inflação, etc. 

Outro ponto do discurso de Dilma foi sobre os royalties para a Educação. Ela mantém o mesmo discurso de quando enviou a proposta pela primeira vez ao Congresso. A proposta vem sofrendo vários reveses, mas Dilma não sintoniza o discurso com o tamanho dos reveses. O Congresso, inclusive a base "aliada", faz reclamações pesadas contra Dilma. E Dilma evita publicamente de fazer cobranças mais diretas ao Congresso, acreditando que ao fazer isso está respeitando a autonomia dos poderes. Sua fala costuma ser: não cabe a mim comentar decisões dos outros poderes. Respeitar a autonomia não significa não ter posição. Até o sociólogo Manuel Castells, que não deve entender nada dos meandros da política brasileira, comentou em sua entrevista que "Dilma está sendo esfaqueada pelas costas pelos políticos". Não se trata de declarar guerra ao Congresso. Mas apelos diretos, firmes e públicos aos parlamentares deveriam, ao meu ver, estar mais presentes na atuação política do governo. Até para que não se repita o episódio da MP dos portos, quando o governo deixou a situação chegar a seu limite, levando Dilma a fazer um apelo com apenas poucos dias faltando para a MP perder sua validade (embora a Medida tivesse sido enviada há meses ao Congresso). O resultado foi aquele: a sessão mais longa da história da Câmara com um festival de deputados ligando para outros deputados voltarem ao Congresso porque os colegas já tinham ido para casa dormir, "achando" que a sessão já tinha terminado.

As posições do governo são conhecidas daqueles que se opõe a elas, como no caso de juros, mudanças nos contratos de concessões públicas, royalties, etc. Não reiterá-las e compartilhá-las com toda a sociedade, não diminuirá a animosidade daqueles que não querem mudanças, mas sim a "volta ao passado". Pelo contrário: o silêncio só fará aumentar a sensação de isolamento do governo.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A espionagem e o silêncio: do governo FHC à atualidade

Por Bob Fernandes, direto do seu blog:

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso diz que "nunca soube de espionagem da CIA" no Brasil. O governo atual cobra explicações dos Estados Unidos, e a presidente Dilma trata do assunto com a cúpula do Mercosul, no Uruguai, nesta quinta-feira (11). O Congresso Nacional envia protesto formal ao governo de Barack Obama.

Vamos aos fatos. Entre março de 1999 e abril de 2004, publiquei 15 longas e detalhadas reportagens na revista CartaCapital. Documentos, nomes, endereços, histórias provavam como os Estados Unidos espionavam o Brasil.


Documentos bancários mostravam como, no governo FHC, a DEA, agência norte-americana de combate ao tráfico de drogas, pagava operações da Polícia Federal. Chegava inclusive a depositavar na conta de delegados. Porque aquele era um tempo em que a PF não tinha orçamento para bancar todas operações e a DEA bancava as de maiores dimensão e urgência.

A CIA, via Departamento de Estado, pagou uma base eletrônica da PF em Brasília, até os tijolos.  Nos idos do governo Sarney. Para trabalhar nessa base, até o inicio da gestão do delegado Paulo Lacerda, em 2002, agentes e delegados da PF eram submetidos ao detector de mentiras nos EUA. Não em Langley, sede da CIA, mas em hotéis de Washington.

 Dentre as perguntas, que alguns do agentes e delegados se recusaram a responder:  já haviam participado de atos de corrupção? Eram homossexuais?

Isso até que viessem a gestão do ministro Márcio Thomaz Bastos e do delegado Paulo Lacerda e um orçamento adequado. Essa base na PF chamava-se CDO, Centro de Dados Operacionais. Publicadas as reportagens, tornou-se SOIP, depois COE. Hoje é a DAT, Divisão Anti-terrorismo.

Carlos Costa chefiou o FBI no Brasil por 4 anos. Em entrevista de 17 páginas, em março de 2004, revelou: serviços de inteligência dos EUA haviam grampeado o Itamaraty. Empresas eram espionadas. Nem o Palácio da Alvorada escapou.


Pelo menos 16 serviços secretos dos EUA operavam no Brasil. Às segundas-feiras, essas agências realizavam a "Reunião da Nação", na embaixada, em Brasília.

Tudo isso foi revelado com riqueza de detalhes: datas, nomes, endereços, documentos, fatos. Em abril de 2004, com a reportagem de capa, publicamos os nomes daqueles que, disfarçados de diplomatas, como é habitual, chefiavam CIA, DEA, NSA e demais agências no Brasil. 

Vicente Chellotti, diretor da PF, caiu depois da reportagem de capa "Os Porões do Brasil",  de 3 de março de 1999. Isso no governo de FHC, que agora, na sua página no Facerbook, disse desconhecer ações da CIA no país.

Renan Calheiros, quando ministro da Justiça no governo FHC, foi convocado pelo Congresso na sequência de uma das reportagens sobre atividades de agências secretas dos EUA. Em público, esquivou-se, negaceou. A mim, numa cerimônia no Supremo Tribuinal Federal, diria na tarde do mesmo dia: "Isso é assim mesmo, é do jogo".

Carlos Costa, que chefiara o FBI no Brasil, foi ouvido em sessão secreta do Congresso, já em 2004.

Antes de o Congresso decidir como seria a sessão, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) foi à embaixada dos EUA ouvir Donna Hrinak, a embaixadora. Segundo testemunho do senador à época, a embaixadora dos EUA informou:

- Se a sessão não for secreta ele (Carlos Costa) será processado pelo governo dos Estados Unidos.

Essa disposição falava por si mesma. E na sessão, que terminaria sendo secreta, Carlos Costa  confirmou tudo o que dissera na entrevista; sobre as ações do seu FBI, da CIA, DEA, NSA, e sobre a espionagem em geral, no Brasil, mas não apenas.

Tudo isso sob quase absoluto e estrondoso silêncio. Um silêncio assustador à época. Tão assustador quanto a suposta perplexidade ao "descobrir", só agora, que os Estados Unidos, e não apenas eles, espionam o Brasil e o mundo. 


terça-feira, 16 de julho de 2013

Declaração de Edward Snowden

A íntegra da declaração de Edward Snowden concedida na sexta-feira, 12 de julho, em encontro com organizações de direitos humanos no aeroporto Sheremetyevo, em Moscou:

Hello. My name is Ed Snowden. A little over one month ago, I had family, a home in paradise, and I lived in great comfort. I also had the capability without any warrant to search for, seize, and read your communications. Anyone’s communications at any time. That is the power to change people’s fates.

It is also a serious violation of the law. The 4th and 5th Amendments to the Constitution of my country, Article 12 of the Universal Declaration of Human Rights, and numerous statutes and treaties forbid such systems of massive, pervasive surveillance. While the US Constitution marks these programs as illegal, my government argues that secret court rulings, which the world is not permitted to see, somehow legitimize an illegal affair. These rulings simply corrupt the most basic notion of justice – that it must be seen to be done. The immoral cannot be made moral through the use of secret law.

I believe in the principle declared at Nuremberg in 1945: "Individuals have international duties which transcend the national obligations of obedience. Therefore individual citizens have the duty to violate domestic laws to prevent crimes against peace and humanity from occurring."

Accordingly, I did what I believed right and began a campaign to correct this wrongdoing. I did not seek to enrich myself. I did not seek to sell US secrets. I did not partner with any foreign government to guarantee my safety. Instead, I took what I knew to the public, so what affects all of us can be discussed by all of us in the light of day, and I asked the world for justice.

That moral decision to tell the public about spying that affects all of us has been costly, but it was the right thing to do and I have no regrets.

Since that time, the government and intelligence services of the United States of America have attempted to make an example of me, a warning to all others who might speak out as I have. I have been made stateless and hounded for my act of political expression. The United States Government has placed me on no-fly lists. It demanded Hong Kong return me outside of the framework of its laws, in direct violation of the principle of non-refoulement – the Law of Nations. It has threatened with sanctions countries who would stand up for my human rights and the UN asylum system. It has even taken the unprecedented step of ordering military allies to ground a Latin American president’s plane in search for a political refugee. These dangerous escalations represent a threat not just to the dignity of Latin America, but to the basic rights shared by every person, every nation, to live free from persecution, and to seek and enjoy asylum.

Yet even in the face of this historically disproportionate aggression, countries around the world have offered support and asylum. These nations, including Russia, Venezuela, Bolivia, Nicaragua, and Ecuador have my gratitude and respect for being the first to stand against human rights violations carried out by the powerful rather than the powerless. By refusing to compromise their principles in the face of intimidation, they have earned the respect of the world. It is my intention to travel to each of these countries to extend my personal thanks to their people and leaders.

I announce today my formal acceptance of all offers of support or asylum I have been extended and all others that may be offered in the future. With, for example, the grant of asylum provided by Venezuela’s President Maduro, my asylee status is now formal, and no state has a basis by which to limit or interfere with my right to enjoy that asylum. As we have seen, however, some governments in Western European and North American states have demonstrated a willingness to act outside the law, and this behavior persists today. This unlawful threat makes it impossible for me to travel to Latin America and enjoy the asylum granted there in accordance with our shared rights.

This willingness by powerful states to act extra-legally represents a threat to all of us, and must not be allowed to succeed. Accordingly, I ask for your assistance in requesting guarantees of safe passage from the relevant nations in securing my travel to Latin America, as well as requesting asylum in Russia until such time as these states accede to law and my legal travel is permitted. I will be submitting my request to Russia today, and hope it will be accepted favorably.

If you have any questions, I will answer what I can.

Thank you.

Fonte: Wikileaks

Arte: Bauderart

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Juquinha no Roda Viva

Se o que Rui Falcão demonstrou na entrevista de segunda-feira diante da bancada de entrevistadores do Roda-Viva for representativo da disposição política do seu partido, então parece haver um erro de percepção: é como se o cenário do debate político fosse um ringue de MMA enquanto o PT ainda acredita estar no cenário da Ana Maria Braga preparando omeletes matinais.

Antes de uma resposta ser dada, os jornalistas já estavam rindo dele. Até o cachorro Juquinha, do governador Sérgio Cabral, virou protagonista. Uma jornalista obstinadamente perguntava como a Reforma Política iria resolver o problema do Juquinha. E arrancava gargalhadas da platéia. E o Rui Falcão mexendo o omelete. Não duvido que até o dono do Juquinha tenha rido dos petistas. Os jornalistas (caninamente solidários a seus patrões) fizeram do PT uma piada nacional. Muitos pmdbistas fazem do PT uma piada nacional. E o PT ainda acredita que é a força hegemônica da coalizão governista, com essa postura? Ou ainda não percebeu que o argumento da "força política hegemônica do país" só serve de munição para que todos os problemas do país lhe sejam tributados? Até o voo do Juquinha.


PS: há exato um mês o tucano José Serra foi recebido pela mesma bancada com tratamento digno de grande intelectual, de grande teórico das mobilizações populares. Justo ele, que legou à história recente da Universidade de São Paulo uma lista de episódios de mobilizações ignoradas, não atendidas e reprimidas pela Polícia Militar. 

Atualizado em 17/07/2013, a partir de diálogo com o blogueiro Ronaldo Souza:

As colocações da bancada eram para desestabilizar, mas nem consistência de argumentos buscaram para este objetivo. O que procuraram fazer foi igualar Juquinhas e Petistas (diga-se de passagem, praticamente deixando isentos os donos dos Juquinhas com suas próprias responsabilidades).

E de outro lado, sempre é bom lembrar a adulação subserviente que eles dispensam aos tucanos que aparelham a TV Cultura: FHC é tratado como Intelectual-Estadista-Grande-Escritor. O maior absurdo da entrevista de FHC, repetido há mais de uma década, é o episódio do apagão: os jornalistas elogiando a posição de estadista que ele teve ao convocar a rede nacional para comunicar o racionamento. FHC babando envaidecido com os elogios: diz que a população foi "incentivada" a colaborar. Os jornalistas devolvem mais loas e dizem que foi um momento de união cívica dos brasileiros.

É uma esquete que dá aquele sentimento de vergonha alheia, entende? Primeiro porque não houve coragem em comunicar o racionamento. Só faltava alguém supôr ser possível um presidente da república impôr uma medida como essa sem, no mínimo, comunicar à população. Segundo, que não houve incentivos. O que houve foram ameaças: os consumidores eram ameaçados com punições, respectivamente, sobretaxa e corte no fornecimento de energia. Não foi, portanto, união cívica espontânea. Foi medo. 

Mas o que se vê, com o passar dos anos, é que a adulação pretende ter poderes mágicos de apagar a história, a memória e a verdade. Até nos assuntos mais básicos: o fornecimento de energia elétrica.

sábado, 13 de julho de 2013

Notas sobre junho

Junho de 2013 foi um mês estranho. Para além do deslumbramento com as manifestações de rua, foi um mês estranho pelo conjunto dos acontecimentos. Não se trata de desqualificar a importância do desejo de participação popular. Mas a significação política vai além da suposta espontaneidade das ruas. Significação indecifrada, é verdade, mas que certamente ultrapassa a voz das ruas. 

Numa democracia que ainda não completou três décadas de existência vimos editoriais da imprensa nacional ironizarem o fato de que, diante das manifestações violentas em Brasília, as "tropas fiéis" a Dilma Rousseff não teriam passado de um cordão humano composto pelos duzentos homens que fazem a guarda pessoal da presidência da República. O estranho fato de a Segurança Institucional ter deixado isso acontecer deu lugar a um fantasmagórico humor político. Humor de mal gosto redobrado pelo fato de que a atual presidente iniciou sua trajetória política movida justamente pelo inconformismo diante de um golpe militar que depôs presidente da República, cassou políticos eleitos democraticamente, perseguiu opositores, instaurou a censura, enfim, impôs o autoritarismo na vida política do país. Nossos principais jornais parecem ter vivido um flashback dos anos em que chamaram de Revolução o golpe de Estado. Assinaram, como se fosse algo trivial e cotidiano, notas afirmando haver uma trama paralela sediada no Palácio do Jaburu: a presidente eleita caminharia a passos largos para o mesmo caminho de figuras como Getúlio Vargas, Jânio Quadros e Fernando Collor. Um precário fio de pudor talvez tenha impedido de acrescentar João Goulart à trágica lista. O vocabulário do golpe entrou em cena sem que se tratasse apenas de alusão histórica. Se não foi iminência real e possível, foi o quê? Um terrorismo psicológico contra Dilma? Em se tratando de uma imprensa que já assumiu publicamente que, diante da inconsistência da oposição partidária, ela própria se via na necessidade de fazer o papel de oposição, tudo é possível.

Um jornalismo que costumeiramente deturpa o sentido das mobilizações populares e aplaude a desmedida repressão policial, entrou em clima celebratório com loas à festa-cívica-pacífica-espontânea-linda-linda-linda-bonita-mesmo-e-espontânea. Claro que a essa altura já não se noticiava mais demandas específicas e contraditórias que se colocaram nas ruas. Não. A essa altura, já era o povo brasileiro unido contra os partidos, contra a corrupção, contra a inflação, lutando pela liberdade tal qual os povos que se levantaram contra ditaduras no norte da África. Um dos jornais de maior circulação no país praticamente arvorou-se na função de líder das massas: depois do pronunciamento presidencial e do abalo na aprovação popular do governo, lançou um editorial decretando o fim da mobilização nas ruas. "Basta. A hora das ruas já se esgotou. Cumprimos uma etapa". Ecos de uma imprensa comandada por meia dúzia de famílias.

Tornou-se clara a falta de comprometimento com ações que, de fato, representassem mudanças na estrutura de nosso sistema político: a proposta de um processo Constituinte exclusivo para fins de uma Reforma Política foi prontamente desqualificada. Uma mediação institucional visando mudanças verdadeiramente reformadoras não interessou (e não interessa) àqueles que apenas pretendem lucrar sorrateiramente com a desestabilização do governo de plantão. Aliás, pareceu não interessar a muitos dos aliados desse próprio governo. Nos bastidores da política havia mais interesse em apostar na possível maior vaia da história que Dilma Rousseff levaria caso comparecesse ao Maracanã na final da Copa das Confederações. A realidade talvez não tenha interessado aos torcedores. O presidente da Câmara dos Deputados usou um avião da FAB para levá-lo, junto de sua trupe de convidados íntimos, assistir ao jogo do Brasil. Joaquim Barbosa também foi ao estádio às custas de recursos do Supremo Tribunal Federal. Não foram os únicos, é verdade. Outros, especialmente interessados em engrossar a vaia contra Dilma, embarcaram em voos similares, ou seja, pagos com dinheiro público. 

Ao fim e ao cabo, Dilma Rousseff parece ter sido uma das poucas, entre os representantes dos poderes em todos os níveis, a ter percebido que o momento não era para festa ou preocupações com vaias. Pelo menos não por parte daqueles que deveriam nos representar, já que ninguém parece ter ficado a salvo de críticas nos protestos de junho. Mas muitos não se atentaram a este detalhe e acreditaram poder sentar confortavelmente em camarotes esperando pela vaia alheia. A presidente não foi ao estádio. Em seu lugar, uma figura saudosa da "Revolução de 1964" e hoje dirigente da CBF foi quem entregou o troféu à seleção brasileira. Não dá para dizer que, neste episódio, os brasileiros que festejavam a vitória no futebol estavam também festejando este simbolismo político. Muitos nem sabem da posição de José Maria Marin durante a ditadura militar brasileira. Mas o saldo dos acontecimentos de junho de 2013 nos permite sim avaliar que a ditadura não é assim tão envergonhada quanto a razão histórica nos faz crer. Mas este junho de 2013 também nos ensinou que não é nem minoria e nem silenciosa a voz daqueles que não aceitam a truculência e o autoritarismo que, em alguns, desperta o saudosismo.

*****


Um sonho constituinte

[Comentário meu] A propósito das manifestações e das reações políticas que ocorreram em junho, vale muito ler este texto de Mino Carta. Diante de uma classe política majoritariamente indisponível e refratária a mudanças, Mino desenha o sonho de uma Constituinte capaz de fundar a quarta República. Uma exceção ao cenário "flashback 64" que outros editoriais de imprensa ajudaram a pintar. Segue o texto:

Ulysses GuimarãesQuando apago a lâmpada noturna e pouso a cabeça sobre a almofada, às vezes me visitam personagens da minha vida, e até de outras, que em hipótese alguma chamarei de fantasmas. A escuridão facilita esses encontros, e ontem quem compareceu foi o doutor Ulysses. Guimarães, está claro, o “senhor diretas”, que teve o consolo de presidir a Assembleia Constituinte de meio período.

Illo tempore, na qualidade de diretor da semanal Senhor, queixava-me por escrito de uma Constituinte “nem carne nem peixe”. Raymundo Faoro, colaborador da revista, não deixava por menos. Não há como um Parlamento funcionar de manhã como tal e, de tarde, na elaboração de uma Carta, dita Magna, nova em folha. Um dia, o próprio doutor Ulysses, pacato mas peremptório na voz de barítono, me disse: “Nas circunstâncias, é o que podemos realizar”.

A injunção das circunstâncias é o entrave perene e fatal. Na sua recente visita, saído da treva, o doutor me disse como e por que tivera, contra a vontade, de “conciliar”. O verbo usado foi exatamente este, conciliar. Não se diga que lhe faltava coragem. Além de presidir um partido de fato de oposição, e por isso várias vezes perseguido, e ferozmente, ele enfrentou os cães da ditadura e desafiou a candidatura ditatorial de Ernesto Geisel com sua irônica anticandidatura. Teve, porém, de renunciar às Diretas Já para conformar-se com a composição conciliatória da chamada Aliança Democrática, em parceria com os inimigos de ontem, braço civil da ditadura, e, inclusive, com a participação decisiva de Tancredo Neves, pronto a perceber que a demanda do velho companheiro Ulysses não lhe convinha.

Foram estes os temas da conversa às escuras, embora vivaz. O doutor sabia da proposta da presidenta Dilma por uma Constituinte destinada exclusivamente a cuidar da reforma política, e por um plebiscito capaz de oferecer um propósito claro às manifestações de rua que marcaram a vida nacional na segunda quinzena de junho. “Pois é – disse o doutor –, de tão leves desfazem-se no ar.”

Baixei a cabeça, contrito. “Qual seria a alternativa?”, perguntei, aflito. Meneou a cabeça e desapareceu de chofre, apagado pelo meu sono. E no devaneio fora do tempo e do espaço que se seguiu, assisti, pasmem, à convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva, integrada pelas melhores cabeças do País, para assentar as bases de um Estado contemporâneo, efetivamente democrático, como o Brasil merece e a casa-grande, pela força das “injunções das circunstâncias”, até hoje não permitiu.

Vivemos um momento de extrema perplexidade e, se, em meio a esta névoa de incerteza e desencanto, hesitamos e tateamos em busca do caminho, bastaria lembrar que o antídoto existe, de comprovada eficácia. Seria possível usá-lo?

Apresso-me a repisar, estou a sonhar, mesmo que o estado de autonomia sem peias do sonhador tenha ligações com a realidade. Inegáveis os resultados positivos atingidos pelos governos dos derradeiros dez anos. Os avanços sociais promovidos precipitaram necessidades e demandas desconhecidas até então, ao cabo de mais de um século de história, desde a República fundada pelos generais.

Por quantas repúblicas já passamos? A primeira termina com Getúlio Vargas e logo deságua no Estado Novo. A segunda começa com a queda de Getúlio e se encerra com o golpe de 1964. A terceira nasce com o fim da ditadura, ampara-se, contudo, em uma democracia que mantém de pé casa-grande e senzala. Há um Brasil em desconforto, que dá mostras de não se adaptar às pretensas injunções das circunstâncias e de amadurecer para a fundação da Quarta República.

Soa no devaneio a hora dos estadistas. Onde estão? Pode parecer incrível, mas nas pregas do transporte onírico parece-me ver transitar a sombra de José Bonifácio, de Mauá, de Joaquim Nabuco.

Rebotes

Comentário de Martín Granovsky, do site Página 12, sobre a preocupação do governo Argentino com os acontecimentos de junho, no Brasil.

El kirchnerismo casi no habla en público de lo que sucede en Brasil. El diputado del Frente para la Victoria Eric Calcagno elogió al gobierno brasileño por su decisión de escuchar las demandas sociales, darles una respuesta política y canalizarlas institucionalmente. En privado, funcionarios y dirigentes se tomaron la cuestión de Brasil en serio. No cayeron, por caso, en una visión futbolera al estilo de “a ellos también les tocó” o “tan buenos no eran”. Al revés. Desde el principio buscaron acopiar datos y relevar tendencias de comportamiento. “No queremos que se instale ningún tipo de inestabilidad regional”, dijo a este diario un funcionario que pidió reserva de su nombre. “Los conservadores argentinos que elogiaban a Lula y Dilma para criticar a Néstor y Cristina hacían ese juego para castigarnos, pero ya dejaron de hacerlo, porque su opción no es ni Lula ni Dilma ni Néstor ni Cristina sino las opciones que están a la derecha”, resumió otro.


quarta-feira, 10 de julho de 2013

Política, manifestações e pelo menos um paradoxo a oferecer

O site Viomundo entrevistou o professor de sociologia Todd Gitlin, cujo livro mais recente trata do movimento "Occupy Wall Street", suas potencialidades e suas limitações. O professor arrisca ainda traçar alguns pontos em comum entre as manifestações massivas que tem ocorrido em diversos países: uma percepção de que a classe política está indisponível para a população, mas, por outro lado, uma incapacidade desses movimentos tornarem-se uma força instituída que dure e seja capaz de alcançar vitórias.

Por Heloisa Villela, de Nova York

Não foi a partir dos atentados de setembro de 2001 que o governo norte-americano passou a investigar seus próprios cidadãos, desrespeitando a Constituição do país.

Invasão de privacidade nos Estados Unidos, por parte do Estado, é prática antiga, conta o professor de jornalismo e sociologia da Universidade de Columbia, Todd Gitlin.

No fim dos anos 60, ele participou do movimento contra a guerra do Vietnã. Na época, morava em São Francisco. Ressalta: “Eu não era uma liderança do movimento”.

Ainda assim, anos depois, através de um amigo advogado que tinha contato com o serviço de espionagem das Forças Armadas, Gitlin passou uma manhã inteira conversando com um agente que fora encarregado de seguir de perto os passos dele.

Na conversa, o professor ficou espantado. O ex-espião ainda sabia todos os endereços nos quais Gitlin morou, para quem trabalhava, onde ía…

Os métodos se sofisticaram e a espionagem se tornou ampla, geral e irrestrita, como as recentes denúncias de Edward Snowden sobre a National Security Agency (NSA) estão deixando cada vez mais claro.

Todd Gitlin analisou o aparato de espionagem, o crescimento da indústria de arapongagem e sua conhecida incompetência em recente artigo publicado no site TomDispatch.

Em entrevista, disse ao Viomundo que desde a publicação do artigo passou a receber novas denúncias sobre o trabalho dos agentes secretos. No texto, conta que enquanto o FBI recebia dicas a respeito dos irmãos Tsarnaev, aqueles que colocaram bombas caseiras na maratona de Boston, os agentes estavam mais preocupados em vasculhar a vida dos ativistas do Occupy.

Essa indústria de vigilância permanente, que trabalha de mãos dadas com as grandes corporações, está mais preocupada com o controle da população que com os terroristas? “Provavelmente”, diz Gitlin.

“Eles podem até achar que estão preocupados com os terroristas, mas o que sabemos a respeito das ações deles mostra que não entendem quase nada de terroristas. Qualquer pessoa que pensou em encontrar terroristas no Occupy é uma besta. Não tem nem graça”, diz.

Todd Gitlin é autor do livro “Occupy Nation”, publicado no ano passado, uma análise dos movimentos que por um período chacoalharam a política dos Estados Unidos.

Uma observação dele nos chamou especialmente a atenção, considerando eventos estranhos que aconteceram recentemente nas ruas brasileiras, especialmente em São Paulo.

Todd conta que na véspera do primeiro de Maio de 2012, um grupo associado ao Occupy de São Francisco seguiu, em passeata, até um bairro chamado Mission — onde não moram ricos, nem representantes do 1% mais rico dos Estados Unidos. Lá, o grupo destruiu lojas e carros. Um médico, que fazia parte do movimento Occupy e testemunhou a cena, garantiu que um grupo de rapazes atléticos, bem barbeados e movidos à testosterona, liderou o quebra-quebra. Acrescentou: “Não sou um desses fanáticos por teorias de conspiração. Mas já li a respeito de agentes provocadores e tenho que dizer que, sem dúvida, acredito 100% que as pessoas que começaram os eventos de hoje à noite eram exatamente isso”.

Gitlin também conta que a vigilância do aparato de segurança já existia quando o movimento Occupy nasceu. No dia 17 de setembro de 2011, um grupo de ativistas de Nova York decidiu seguir em passeata até a sede do banco JPMorgan Chase.

Chegando lá, os ativistas encontraram o quarteirão todo cercado. Muitos deram como certo que a polícia soube, de antemão, através do monitoramento da troca de e-mails do grupo, para onde pretendiam ir. Por isso, decidiram mudar de rumo na última hora. Seguiram para o Parque Zuccotti, no baixo Manhattan, e ali ficaram — dando início ao que se tornou, depois, o Occupy Wall Street.

Todd Gitlin acredita que os métodos policiais foram empregados por mais de um ano para enfraquecer, com sucesso, o movimento. Mas não atribui o desaparecimento do Occupy a essa interferência.

Ele enxerga na gênese do Occupy a origem da dispersão, mais tarde: ausência de uma agenda política mais ampla e desinteresse e/ou a falta de capacidade organizacional para participar do processo político.

A seguir, a entrevista que nos foi concedida pelo autor:

Viomundo – Quais foram os resultados concretos do movimento Occupy?

Todd Gitlin – O Occupy teve efeito considerável na condução das eleições [legislativas] e mudou o centro de gravidade da política norte-americana. A classe política teve que tratar da questão da desigualdade. Isso roubou a vitória do Tea Party e reorientou o eixo da política norte-americana. Eles [integrantes do Occupy] tornaram mais concretos os desafios da democracia estadunidense diante da desigualdade, mas não conseguiram se sustentar. O movimento enfrentou problemas quando ainda estava nos acampamentos. Quando foram fechados, as forças centrífugas foram fortíssimas. Na superfície, ao menos, tenho que dizer que o Occupy, como movimento, foi bem sucedido enquanto fracassava. Não sei como demonstrar isso, mas muito da energia gerada pelo Occupy foi redirecionada para outros movimentos. É o que ainda está acontecendo com lutas em defesa do meio ambiente, liberdades civis e outras. Mas a habilidade de influenciar a classe política foi muito limitada.

Viomundo – No fim, vimos o Presidente Barack Obama usar a retórica do movimento, falar na defesa dos 99% [contra o 1% no topo da pirâmide], sugerir aumento de impostos para quem ganha mais de US$ 250 mil por ano. Mas foram tomadas medidas concretas para atender as demandas que o movimento trouxe à tona?

Todd Gitlin – Não! É o problema de movimentos como esse, de energia difusa. O problema é como fazer a classe política se mexer. Se o movimento acreditasse nisso, teria se juntado ao Partido Democrata — como o Tea Party fez com o Partido Republicano — e tomado controle de várias áreas do partido, o que não seria difícil.

Viomundo – Para promover mudanças efetivas, eles teriam que entrar no jogo político? Não seria suficiente ter reivindicações mais específicas?

Todd Gitlin — Eu faço uma distinção entre o núcleo do movimento, mais anarquista, que começou com os acampamentos, e a parte de fora, mais convencional, organizada, os sindicalistas, os progressistas, a classe média. Essa parte era bem maior. Mas o núcleo dirigia o processo. E não dava para esperar que eles buscassem isso porque não são assim. Na minha visão, a parte de fora do movimento, se houvesse chance para alguma continuação e canalização da energia em prol de reformas, teria que vir de acordos dos grupos de fora do movimento em torno de um programa mínimo. Mas isso nunca aconteceu. O impulso gerado pelo Occupy se dissipou. Esses grupos organizados teriam de ter formado uma grande coalizão, de sindicatos e movimentos sociais, para ter um acordo coletivo.

Viomundo – Por que não aconteceu?

Todd Gitlin – Pelo lado dos sindicatos, porque eles estão se sentindo vencidos, estão envolvidos em divisões internas, chegaram ao movimento com outra mentalidade. Sabem o que fazer quando tem eleição: eleger democratas. Mas só conseguem acordo para isso. Entram com mentalidade defensiva. Não têm uma mentalidade rebelde. Sentem-se fracassados. As outras organizações progressistas estão envolvidas em suas próprias causas – ação afirmativa, aborto, etc. Não têm ideia coerente a respeito da transformação de forma geral.

Viomundo – O Occupy acabou?

Todd Gitlin – Da forma que vimos em 2011 acho que sim. Mas existe um repositório mais ou menos permanente e subterrâneo, um poço de dissidentes, de anarquistas, de contracultura. E de tempos em tempos ele emerge com preocupações que tocam muitas outras pessoas. De certa forma, o Occupy foi o ressurgimento de um espírito que apareceu primeiro em 1999, durante as demonstrações antiglobalização em Seattle. Agora, esse espírito, que é horizontalista e anarquista, voltou para o subsolo e não sabemos quando virá à tona novamente.

Viomundo – O senhor vê uma correlação entre os movimentos populares recentes no Egito, na Turquia e no Brasil?

Todd Gitlin – Existem muitas distinções entre Tunísia e Egito, depois Espanha e Grécia, Estados Unidos, depois Turquia e Brasil. Mas o elemento comum, ou um deles, é o sentimento de boa parte da população de que a classe política está indisponível para eles. Que vive trancada em um universo que está aquém da influência deles.

Essa é a mensagem que veio da Espanha, da Grécia, dos EUA, da Turquia e parece vir do Brasil. E não é por razões desconectadas que sentem a necessidade de ir às ruas. É porque a politica oficial não é adequada para os problemas que enfrentam.

Mas esses movimentos têm um problema em comum. Eles nasceram entendendo que a classe política falhou com eles. E têm neles mesmos a força para gerar um novo segmento ou substituto para a classe política? Em outras palavras, você não pode governar sendo apenas oposição. A pergunta para todos esses movimentos é: eles podem se transformar, ao menos em parte, em uma máquina, uma espécie de força instituída que dure, que possa alcançar vitórias?

domingo, 7 de julho de 2013

Duas versões do perigo em Gotham City!!


Há perigo em 
Gotham City!

Cuidado!

A explosão do ódio

[Comentário meu] Tenho escrito nos textos sobre o pós-manifestações sobre o seguinte problema:"O fato de que houve manifestações fascistas nas ruas tenderá a ser ignorado como questão menor, mas é altamente preocupante para uma sociedade que se quer democrática". Não se trata de dizer que as manifestações tenham sido eminentemente de caráter fascistóide, mas sim como a panacéia da multidão encorajou a este tipo de expressão colocar-se junto aos protestos com um discurso proselitista. Sobre o fascismo presente nas manifestações, vale ler também o artigo de Igor Grabois (aqui).

A matéria que segue, da Carta Capital, e os blogues têm sido a única exceção até aqui.


Antropóloga detecta aumento de sites neonazistas brasileiros. E o índice de arquivos baixados com estas características cresce a uma taxa média de 6% ao ano
por Márcio Sampaio de Castro

Durante a última grande manifestação organizada pelo Movimento Passe Livre (MPL), para comemorar a revogação do aumento das tarifas do transporte coletivo em São Paulo, integrantes de partidos políticos e movimentos sociais foram atacados por jovens trajando toucas ninjas, roupas pretas e coturnos. Enquanto agrediam seus alvos, a multidão ao redor aplaudia e gritava “fora partidos, fora partidos”. Para a antropóloga Adriana Dias, que pesquisa há mais de 10 anos a atuação dos movimentos neonazistas no Brasil e já foi diversas vezes ameaçada de morte por seus integrantes, não resta a menor dúvida sobre quem eram esses jovens violentos e quais eram suas motivações.

A partir da análise de blogs, sites e fóruns de relacionamento, muitos deles com domínio no exterior, a pesquisadora documentou, ao longo de sete anos, que mais de 150 mil downloads de arquivos de teor nazista, superiores a 100 megabites cada, foram baixados por um número equivalente de computadores com endereços eletrônicos localizados no Brasil no mesmo período. De 2009 para cá, o índice de arquivos baixados com estas características tem crescido a uma taxa média de 6% ao ano e até postagens de crianças já foram detectadas por ela.

Para Adriana, um misto de despolitização da sociedade no período pós-ditadura e a transformação da política em escândalo por boa parte da mídia são o ovo da serpente para a expansão de manifestações crescentes de caráter nazifascista na sociedade brasileira. A omissão sistemática das autoridades às agressões perpetradas contra homossexuais, negros, judeus, nordestinos, moradores de rua e imigrantes bolivianos nas ruas de grandes centros urbanos completa o ciclo de terror, que silenciosamente avança junto a um número nada desprezível de jovens brasileiros.


Carta Capital: Nas manifestações populares das últimas semanas em São Paulo, um momento que chamou a atenção foi quando jovens, aparentemente ligados a esses movimentos, atacaram militantes partidários e militantes do movimento negro, destruindo suas bandeiras. Enquanto isso ocorria, a multidão à sua volta gritava “fora partido, fora partido”. Como explicar esses dois fenômenos simultâneos?

Adriana Dias: Desde a ditadura militar nós avançamos por um processo de despolitização espantoso em todas as camadas sociais. Os cursos de sociologia e filosofia foram retirados do currículo escolar. Em segundo lugar, há no Brasil uma proliferação da teologia da prosperidade. Na Alemanha, ela foi fundamental para a ascensão do nazismo. A ideia aqui é que não são as ações do governo que auxiliam nessa prosperidade. Por exemplo, o indivíduo consegue comprar uma casa pelo programa Minha Casa, Minha Vida e vai a um culto religioso e acredita que conseguiu por sua própria conta. Esse afastamento gradual do Brasil de um estado laico torna tudo mais difícil. Tanto na Igreja Católica, em sua linha carismática, quanto em certas igrejas protestantes. Por fim, a política de escândalos, patrocinada pela mídia, criou uma personalização da política como um eterno escândalo. Eu chamo isso de um carnaval às avessas. Se no carnaval o povo vai pras ruas para expor sua alegria, nessas manifestações as pessoas têm ido às ruas para expor suas insatisfações, fazendo reivindicações que não são mensuráveis e de um fundo conservador muito forte.

CC: Quais as alternativas para isso?

AD: A alternativa é a volta para o diálogo com os movimentos sociais. Nas elites políticas, em um sentido mais geral, há um movimento totalitário, dentro do que analisa Hannah Arendt. Particularmente na direita brasileira. Em São Paulo, por exemplo, muitas práticas do Estado são totalitárias. Veja a atuação da polícia. Já em um campo mais específico, entram esses movimentos neonazistas e suas ações, como essa verificada nas manifestações.

CC: Como esses jovens neonazistas são cooptados?

AD: Há um proselitismo muito forte no Brasil. Os grandes líderes têm entre 35 e 50 anos e normalmente são pequenos empresários e profissionais liberais. Estes não vão para as ruas. Em um segundo grupo, temos os mais jovens, que vão para as ruas e não se importam por que sabem que, se forem presos, serão soltos. E temos também as mulheres neonazistas, que são vistas somente como reprodutoras, dentro de um ideal paternalista e machista. Os grandes líderes atuam dentro de universidades, por exemplo, distribuindo material de divulgação do movimento e, principalmente, nas redes sociais.

CC: Como surgiu a ideia de pesquisar o movimento neonazista no Brasil?

Adriana Dias: A partir de uma

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Questões emergentes sobre o pós-manifestações

Os textos reunidos nesta série "Questões emergentes" visam um conjunto de interrogações sobre os protestos brasileiros que ocorreram no mês de junho. Para além da supostamente pura "espontaneidade" eles dão margem a diversos questionamentos políticos. 

Desde o ponto de vista de jornalistas que cobrem a política e eles próprios são possuidores de experiências políticas, como é o caso de Mauro Santayana (Estranhando anônimos e autoritários, aqui). Passam pela análise do periódico El País (Una pregunta inquietante sobre la protesta brasileña, aqui). Passam também, no  artigo de Hermano Vianna, pela centralidade que as redes sociais, que são propriedade privada de corporações midiáticas gigantescas, têm tido neste processo (Quem quer "dobrar o Brasil"?, aqui). Passam ainda pelo apontamento dos riscos colocados às instituições democráticas destacados nas palavras de Wanderley Guilherme dos Santos (O Cerco Reacionário, aqui). Devem contar também com a contribuição da análise econômica de Igor Grabois sobre o jogo político-econômico que permitiu a canalização de certos protestos na figura da presidenta Dilma Rousseff (Por que setores da sociedade brasileira com tradicional repúdio às mobilizações populares foram às ruas engrossar fileiras contra Dilma Rousseff?, aqui). Encontram uma perspectiva geopolítica interessante do jornalista Nil Nikandrov (A multipolaridade em xeque e a geopolítica norte-americana, aqui). E vão, finalmente, à análise do sociólogo Manuel Castells sobre os protestos e a novidade representada pela resposta da presidenta brasileira ao conjunto dos manifestantes (A análise ignorada sobre a resposta de Dilma, aqui).

Certamente, diversos outros pontos de vista têm sido colocados desde o início das manifestações até agora. Nem mesmo pode-se dizer que estejamos, de fato, num instante pós-manifestações. A ameaça de lock out  patronal (nada espontâneo) no sentido de paralisar estradas em todo território nacional ainda ronda o cenário atual. Sabe-se tratar de uma estratégia que assume conotação política capaz de desestabilizar países e governos. As reações estão em curso e ainda não permitem uma compreensão mais precisa. Os mesmo pode-se dizer em relação ao tema da Reforma Política. Reconhecidamente necessária e ligada à crise de representatividade, foi anunciada de forma a dar esperanças de uma Assembléia Constituinte específica. Por pressões da classe política, acabou resultando na ideia de uma consulta popular e, mesmo esta, já enfrenta diversos obstáculos no Congresso. O resultado periga ser nenhum a não ser o sangramento do governo petista e o esgarçamento ainda maior da coalizão política que lhe dá (em tese) sustentação. De qualquer modo, os textos aqui reunidos dão uma boa dimensão dos problemas que se tornaram emergentes após os acontecimentos de junho.

Questões emergentes: estranhando anônimos e autoritários

[Comentário meu] A princípio, minha ideia era publicar apenas o texto "O joio, o trigo e a razão" (Jornal do Brasil), do jornalista Mauro Santayana, nessa série de questionamentos. O texto em questão vai na mesma linha de Wanderley Guilherme dos Santos e, de certa forma, de Hermano Vianna, ou seja: interroga a estratégia das manifestações que partiu das redes sociais contando, inclusive, com mensagens internacionais, misturando-se às demandas objetivas e legítimas que se colocaram nas manifestações, formando uma verdadeira panacéia propícia às ações antidemocráticas. Resolvi juntar no mesmo post o texto "Caixa de Pandora", publicado no próprio blog do jornalista, no qual ele apresenta seu estranhamento em relação às vertentes antidemocráticas que pretenderam conduzir as manifestações. Ambos os textos foram escritos no calor dos acontecimentos e, por isso, não trazem atualizações importantes, mas continuam interessando pelo fato de trazerem a observação política de um jornalista atento à História, preocupado com a democracia e crítico das posições autoritárias.


      As manifestações que tomaram as ruas de todo o país nas últimas semanas começaram de forma legítima e democrática, convocadas por uma organização conhecida, que existe há muito tempo, e que há muitos anos defende a mesma bandeira, acompanhada de outras organizações, muitas delas situadas à esquerda do espectro político.

     O caráter apartidário do Movimento Passe Livre, o êxito da mobilização, a pauta relativamente aberta de reivindicações, foram logo vistos pela extrema direita como  oportunidade  para infiltrar, diretamente e pela internet, suas ideias no movimento, como o “Acorda Brasil”,  adaptação direta do  Deutschland  Erwacht! do nazismo, atribuído a Goebbels.

     Passou-se a incitar o ódio aos  políticos, o desprezo pelas instituições, com a intenção de  desacreditar a imagem do país no exterior, e de atingir a governabilidade e a economia.

     Em um primeiro momento, alguns setores da oposição democrática,  inseridos no sistema político normal,  podem ter sido atraídos  pelo movimento que exibia cartazes pedindo o impeachment da Presidente Dilma,  sem ver outros,  mais numerosos, pedindo indiscriminadamente a cabeça dos políticos e tachando-os, todos, de ladrões e corruptos.

      Outros membros da oposição também  se sentiram certamente acuados,  ao se verem cercados no Congresso, ou em cidades e estados governados por seus partidos, por milhares de pessoas e por grupos armados de paus, pedras e fogo.

     O que estamos vendo, resguardados os manifestantes comuns, é o vir à luz de um frankenstein político que, em nome da liberdade de manifestação, ataca, com bandidos   mascarados, instituições nacionais e militantes do PT, do PSTU, e do  PSDB,  quando estes ousam sair às ruas.

      A tentação de dançar com o diabo, mesmo que por parte de uma minoria, é perigosa e enganadora. Muitos daqueles que apostaram no caos em 1964, pensando que ascenderiam ao poder - como Carlos Lacerda -  terminaram cassados e humilhados pela Ditadura.

      Apesar do recuo das autoridades na questão do preço das passagens, continuam as manifestações, agora com a intenção deliberada de paralisar as capitais, como mostram as manobras sincronizadas de interrupção do tráfego em diferentes pontos, como aconteceu em São Paulo no início da semana.

     Essa vertente fascista vem estendendo paulatinamente o seu controle, indireta e insidiosamente, sobre centenas de pessoas inocentes e bem intencionadas, e não se descarta a possibilidade de que estejam sendo pagos os vândalos que promovem quebra-quebraS e desatam sua fúria diante das câmeras da imprensa internacional.

    É contra esses inimigos ocultos da  democracia que as instituições, os homens públicos e os cidadãos, quaisquer sejam seus partidos, têm que se unir –  e agora.


      A situação criada com as numerosas manifestações, no Brasil, nas últimas semanas, não se resolverá com a reunião realizada ontem em Brasília, da Presidente Dilma Rousseff, com governadores e prefeitos de todo o país - embora o encontro seja um importante passo para atender às reivindicações dos que foram às ruas.
       Seria fácil enfrentar a questão, se as pessoas que vêm bloqueando avenidas e rodovias - levantando cartazes com todo o tipo de queixas - fossem apenas multidão bem intencionada de brasileiros, lutando por um país melhor.
      A Polícia Civil de Minas Gerais já descobriu que bandidos mascarados, provavelmente pagos, recrutados em outros estados, têm percorrido o país no rastro dos jogos da Copa das Confederações, provocando as forças de segurança, a fim de estabelecer o caos.
     Mensagens oriundas de outros países, em inglês,  já foram identificadas na internet, como parte da estratégia que deu origem às manifestações.  
     É preciso separar o joio do trigo.

Questões emergentes: Pergunta inquietante

[Comentário meu] Passado o deslumbramento que chegou ao ponto de se esquecer do questionamento político sobre a real origem das manifestações, é importante que esta reflexão não se perca. Alguns veículos de imprensa internacional passaram longe da cobertura que simplesmente celebrou o caráter espontâneo dos movimentos convocados pelas redes sociais. Exemplo é este texto do El País:

Muchos ciudadanos que participarían en las protestas prefieren seguirlas desde casa por temor a los violentos

Corre por las redes sociales y por la prensa una pregunta inquietante sobre las protestas populares presentes en todo el país: ¿Por qué la policía deja a un grupo de vándalos actuar sin detenerles ni paralizarles? ¿A quién interesa en este momento que una marcha de protesta pacífica en un 99% quede empañada por un grupo que aparece siempre puntual para arrasar con todo lo que encuentra por delante creando irritación y miedo en la población?

Muchos ciudadanos que saldrían felices a participar en las marchas de protesta que ya han conseguido grandes victorias políticas y sociales, prefieren seguirlas desde casa por temor a verse envueltos en uno de esos zafarranchos violentos. No existe una explicación a lo que aconteció, por ejemplo, este miércoles en Belo Horizonte, donde 5.500 policías militares y 1.500 soldados del ejército se mostraron incapaces de impedir que un grupo de cien vándalos destruyeran e incendiaran un concesionario de automóviles, saquearan casas y quemaran muebles en plena calle.

Ayer Belo Horizonte tuvo la primera víctima mortal de las manifestaciones

A ello hay que añadir que la policía, desde la primera gran manifestación de Sâo Paulo, que acabó en una batalla campal, ha sido tremendamente violenta con los manifestantes solo porque querían mover las protestas a un lugar diferente de la ciudad.

Este miércoles Belo Horizonte tuvo la primera víctima mortal de las manifestaciones. Y se trató de alguien pacífico huyendo de los ataques de la policía. Mientras tanto, el grupo de vándalos se despachó a su gusto, observado desde lo alto por un helicóptero de la policía sin que nadie se acercara a ellos.

Esa actitud incomprensible de las fuerzas policiales, que los comentaristas de radios y televisiones expresan incrédulos cada vez, se repite inexorablemente en todas las marchas. A falta de una respuesta oficial a esa pregunta que inquieta a todos, surgen en las redes sociales una serie de explicaciones, que van desde las más peregrinas, como que se trataría de policías disfrazados pagados por quienes desean desprestigiar la protesta ante la clase media, hasta las que sospechan que los agentes reciben órdenes para dejar que los vándalos actúen tranquilamente. El propósito sería que la gente acabe irritada y empiece a abandonar la protesta.

Existe una dosis de violencia imposible de impedir en todas las manifestaciones de masa hasta en las más pacíficas, advierten los sociólogos.